sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Lembranças... (27)

Era um domingo de verão. Sol escaldante. Calor infernal. Eu em casa, sem nada pra fazer. Aliás, sem coragem de sair naquele sol, quando ouvi a buzina de um carro. Sai no portão e lá estava o Paulinho, Alex e Sandro, preparadíssimos pra ir pro Rio das Vacas.

Pra quem não conhece, Rio das Vacas é um rio que tem num município vizinho que o povo vai passar o dia. Lugar bonito, água cristalina e gente feia! Aff... Só farofeiros. Mas, como somos guerreiros...

Vesti uma sunga, coloquei shorts e camiseta e fui pro carro. Quando entrei notei que o Paulinho, dono do carro, estava só de sunga. Falei que ele era maluco e que não estávamos na praia. Ele disse que só ia sair do carro lá e quando voltasse e que por isso não tinha problema.

Pra chegar lá são mais de 30 quilômetros de asfalto, quando então entramos numa estradinha de terra batida, estreita e escorregadia. Acho que uns 10 quilômetros.

Enquanto estávamos no asfalto, tudo bem, mas quando entramos na estrada de terra começou o sufoco. O Paulinho achava que estava fazendo rallie, tamanha velocidade que andava.

Tentei dar uns toques pra ele, mas recebi um “ta tudo sob controle, fica frio”. “Me prendi” no cinto de segurança e rezei. Graças a Deus, chegamos bem.

Lá foi só festa. A gente, no meio daquela barangada, éramos verdadeiros Reis. Sabe, de tempos em tempos, quando minha auto-estima despenca, sempre dou um pulinho lá. Volto me achando o Brad Pit tupiniquim.

Pois bem, o Paulinho saiu de sunga e enquanto a gente tirava a roupa pra deixar no carro, ele nos zuava, dizendo que devíamos ter sido espertos como ele e ido apenas de sunga.

Cervejas, paqueras (arghh), vários pulos, braçadas, passeios pelo “resort barangirl” e o tempo começou a mudar. No horizonte nuvens pretas se formavam e o céu escurecia. O povo começou a pegar o que sobrou da farofa e do frango e ir embora.

Como tínhamos uns 10 kms. de estrada de terra pra percorrer, seguimos o povo antes que aquele temporal chegasse e virasse um pântano só, correndo o risco até de ficarmos atolados lá.

Aquele monte de carro voltando, em fila indiana, muita poeira, o tempo cada vez mais fechado quando, de repente, um estouro. Furou o pneu traseiro do nosso carro.

Difícil foi achar um lugar pra estacionar naquela estradinha estreita e com aquele monte de gente voltando. Descemos e começamos a trocar o pneu, engolindo a poeira dos carros que passavam. Enquanto nós estávamos vestidos, o Paulinho ajudava apenas de sunga. Uma gracinha (rsrsrs).

Solidariedade zero do povo. Todos preocupados em ir embora antes da chuva. Na troca do pneu, notamos que o pneu estepe estava feio, acabado, a um passo do final. Trocamos, entramos no carro e falei pro Paulinho ir devagar, pois agora estávamos sem estepe.

Ele veio devagar. Saímos da estrada de terra e pegamos o asfalto. No trajeto conversas, piadas, planos... quando de repente: outro estouro. Lá se foi o estepe pra cucuias. Claro, do jeito que ele estava, durou muito até. Achava que não andaria nem um quilômetro.

Mas a questão agora não era reclamar do pneu velho e sim o que fazer sem um estepe. Tentamos o celular. Ligamos para a SP Vias, mas nos informaram que havia ocorrido um acidente e todos os carros estavam trabalhando naquele local.

Tentamos pedir carona. Mas com a chuva, ninguém se habilitava a parar. Ainda mais com o Paulinho de sunga, de um lado pro outro da pista. Nem precisa dizer que todo carro que passava buzinava pra ele.

A chuva apertou. E esfriou. E ele de sunga. A gente ria muito. Após 3 horas esperando o resgate, achamos por bem irmos caminhando até um posto que havia há uns dois quilômetros, tentar arrumar um dos pneus furados.

Mas quem iria? Resolvemos tirar no palitinho. O Paulinho quis ficar de fora dizendo ser o dono do carro, mas no fundo sabíamos que era porque ele estava só de sunga. Após muitas brigas e discussões, ficou acertado que iriam dois. Os dois que perdessem.

Claro que o Sandro, com seu jeito malandro, fez com que os perdedores fossem o Alex e.... claro... o Paulinho! Outra briga. Ele não queria ir. E o Alex disse que sozinho não iria. Briga daqui, briga dali e lá foram os dois.

O Paulinho pediu o meu e o shorts do Sandro emprestado, mas claro que não íamos dar. A graça estava em ver ele desaparecer no infinito do asfalto apenas de sunga enquanto o Alex empurrava o pneu.

Pois bem, tão logo eles sumiram, eu peguei o celular, liguei pro meu pai e pedi pra que ele viesse até onde estávamos e para que pegássemos o pneu estepe do seu carro, afinal o carro era do mesmo modelo do Paulinho.

Ele veio, eu e o Sandro pegamos o pneu e trocamos. Agradeci meu pai, me despedi e entramos no carro, esperando os dois voltarem.

Vocês devem estar se perguntando porque não liguei antes. É que eu tava me divertindo muito com o Paulinho de sunga no asfalto e os carros passando e buzinando. Deixei rolar até ver onde iria dar isso. Quando eles foram arrumar o pneu, perdeu a graça. Dai que liguei.

Mas voltando: após mais de uma hora, vimos o Paulinho e o Alex voltando. Como estávamos numa leve descida, notamos que algumas vezes o pneu escapava deles e eles tinham que correr pra segurar.

Quando chegaram no carro, eu e o Sandro fingíamos dormir. Estava escuro, pois já devia ser umas 10 da noite. Eles chegaram xingando, fazendo barulho e pedindo pra trocar logo, pra irem embora. Principalmente o Paulinho, que não sei porque, era o mais estressado (depois o Alex me contou que no Posto os caminhoneiros zuaram muito com ele).

Quando o Paulinho foi trocar o pneu, reparou que estava cheio. Sem entender, perguntou o que havia acontecido e respondi que eu e o Sandro havíamos enchido assoprando, cada hora um.

Aquela noite aprendi um monte de palavrões novos, graças ao Paulinho. Mas só contei pra ele como “arrumamos” o pneu depois que ele me deixou em casa, pois não queria correr o risco de ser deixado na estrada a noite.

Um comentário: