sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Lembranças... (28)

Todo mundo sabe que Halloween é “comemorado” dia 31 de outubro, o dia das bruxas. Até um tempo atrás, aqui em Itapeva, em parceria com os cursos de inglês da cidade, a Danceteria Zoggy (antiga Acrópolis) fazia o Baile de Halloween todo ano.

E como "Os Rita" estavam em todas as baladas, até roupas de Halloween tínhamos (pra quem não sabe o que é ou quem eram Os Rita, leia "Lembranças 26"). Todo ano estávamos marcando presença. Fantasiados, maquiados e fazendo muita bagunça.

Teve um ano que fomos convidados, por um amigo meu que mora numa cidade vizinha, para ir no Halloween que ele estava promovendo naquela cidade, cuja renda seria destinada ao Asilo local.

Claro que não foi por motivos filantrópicos que decidimos ir. Tinha festa, lá estavam Os Rita. Mas o que nos causou estranheza foi a data do baile: dia 14 de novembro.

Como disse, o dia das bruxas é 31 de outubro. Mas ele nos explicou que foi a única data disponível no clube da cidade. Tudo bem. Iríamos até se fosse em Fevereiro ou no Natal.

Dia 14 de novembro, em dois carros, fomos para o baile naquela cidade. Fomos direto na casa do meu amigo para nos trocar e maquiar. Caprichamos na maquiagem. Queríamos estar irreconhecíveis (como se alguém de lá nos conhecesse).

Quando deu uma hora da manhã, todos maquiados e fantasiados, nos dirigimos ao clube. Na chegada, já achei estranho, pois tinha apenas 3 carros estacionados. Mas já podíamos ouvir o som da banda. Descemos e entramos no salão.

Na entrada, havia um corredor escuro, onde umas mãos pregadas na parede e uns negócios pendurados davam a impressão que estávamos sendo tocados. Achei legal a decoração, super original e criativa. Fiquei imaginando que, se naquele corredor estava assim, o salão devia estar decoradissimo.

Quando consegui me libertar do corredor, dei de cara com um salão enorme e... vazio! Isso mesmo. Vazio, sem nenhuma decoração que lembrasse Halloween. Aliás, não lembrava nem mesmo ser um baile, a não ser pela banda que tocava para cinco pessoas que estavam bem em frente do palco.

É, vocês leram direito. Havia apenas cinco pessoas no salão. E mais cinco seguranças. A banda tinha 12 elementos. Logo, tinha mais gente no palco tocando do que na pista dançando.

Das cinco pessoas que estavam dançando, três eram mulheres e dois homens. Como tenho um faro pra certas coisas, não demorei muito ver que os dois caras não davam um homem completo. Rebolavam demais!

E as três mulheres eram feias. Muito feias. Aliás, acho que eram elas a decoração do Baile. Decoração móvel. Mesmo sem fantasia, lembravam as bruxas da Idade Média.

Quando entramos no salão, praticamente triplicou o numero de participantes, pois éramos em mais 10: eu, Morlock, Carlaum, Suski, Paulinho, Alex, Sandro, Fabiano e o casal que nos convidou.

Isso demonstra que matemática é uma ciência enganadora. Imagina alguém comentando matematicamente como tava a festa: “Ah, até uma hora da manhã tinha pouca gente, mas depois da uma triplicou.”.


Ou então: “Nesta eleição eu dobrei meus número de votos recebidos. Tive 100% de aumento". E o cara pergunta: "Nossa, como conseguiu isso?" E ele responde: "Simples: casei. Antes tinha meu voto. Agora tenho o da minha esposa também”.

Talvez isso explique mais um pouco porque odeio de Matemática.

Mas voltando ao Halloween: entramos e fomos pra frente do palco, onde estavam as três mulheres e os dois caras. Um dos meus amigos (que não vou revelar o nome, porque ele é o personagem principal da história), já tinha começado a beber aqui em Itapeva, foi bebendo durante a viagem e já chegou no salão totalmente no "clima”.

Numa das músicas, ele ameaçou um giro e... cataploft! Se esborrachou no chão. Levantou (ou levantaram ele) e seguiu dançando. Nova música, novo giro, novo tombo. Talvez cansado de cair, resolveu xavecar as meninas, aquelas decorações móveis do halloween.

O palco era bem alto e os banheiros ficavam do lado do palco. Embaixo dele, bem no centro, havia uma portinha, que é por onde os técnicos de som entram e passam os fios, prendem os pedestais dos microfones, baterias, etc. Muitos palcos são ocos por baixo e em algumas ocasiões, os técnicos ficam embaixo, arrumando ou desenrolando fios, durante todo o show.

Num dado momento percebi meu amigo entrando naquela portinha debaixo do palco, sozinho. Entrou e fechou a porta. Não entendi. Eu estava no bar pegando cerveja e quando voltei vi ele saindo pela portinha, com uma cara meio séria. Fiquei na minha.

Ele saiu e voltou a xavecar as meninas. E a cada passo que dava, talvez pelo efeito da bebida, ele se jogava mais e mais pra cima daqueles enfeitinhos de festa, quase que roubando um beijo. E olha que elas nao faziam questão nenhuma de evitar. Muito pelo contrário. Estavam facinhas, facinhas.


Nisso meu amigo me puxou de lado, todo preocupado. Ele é dono de uma farmácia na cidade e me falou: “Avisa seu amigo que das 3 meninas, duas foram esta semana na farmácia comprar remédio para tratar DST”. Gelei!

Rapidamente fui ao encontro do meu amigo pra avisá-lo. Tarde demais! Ele já tava beijando uma. E agora? Será que era a única que não tinha ido na farmácia? Voltei e perguntei pro meu amigo, que me confirmou: "Ele acertou em cheio. Essa foi na farmácia!".

Corri até ele, puxei no meio do beijo e o levei pro canto. Falei que era pra ele parar de beijar a menina pois ela podia ser namorada de um dos caras. Ele disse que não tinha problema, pois os caras eram gays (suspeitei desde o início!). Mesmo assim, pra abaixar o seu fogo, levei até o bar e peguei duas cervejas. Bebemos e fumamos um cigarro (naquela época podia fumar no recinto).

Ele voltou pra pista, pra frente do palco. E minutos depois, lá estava beijando a outra projeto de bruxinha. Bom, agora a probabilidade era de 50 a 50% (lá vem a maldita matemática). Olhei pro meu amigo e pude perceber pelo seu rosto e pelo sinal com o polegar pra baixo que ele havia errado de novo. Outra cliente da farmácia.

Putz, cara! Duas em três e ele consegue acertar em cheio???? Não tive dúvidas. Corri novamente e o puxei, no meio de outro beijo. Dessa vez não o levei ao bar, mas entrei no corredor ao lado do palco e o levei no banheiro masculino.

Lá dentro do banheiro masculino abri o jogo com ele. Expliquei o que meu amigo tinha dito e da sorte (ou azar) dele nas escolhas. E que ele devia ficar longe delas, pois poderia ter problemas se o clima esquentasse ainda mais.

Enquanto falava notei que ele estava mais preocupado com o banheiro. Olhava o ambiente, o espelho, os mictórios e as portinhas, meio que assustado. Terminei de falar e ele quieto, notando tudo ao nosso redor.

Perguntei se tava tudo bem e o que ele tanto olhava. E seguiu o seguinte diálogo:

-De onde surgiu esse banheiro? ele perguntou.

- Ué? É banheiro, oras. Você não tinha vindo aqui ainda?

E ele:

- Eu não. Eu fui naquele banheiro que tem debaixo do palco! É mais escuro mas é mais perto que este...


Sinceramente, até hoje não sei como ele não morreu eletrocutado naquela noite.

Lembranças... (27)

Era um domingo de verão. Sol escaldante. Calor infernal. Eu em casa, sem nada pra fazer. Aliás, sem coragem de sair naquele sol, quando ouvi a buzina de um carro. Sai no portão e lá estava o Paulinho, Alex e Sandro, preparadíssimos pra ir pro Rio das Vacas.

Pra quem não conhece, Rio das Vacas é um rio que tem num município vizinho que o povo vai passar o dia. Lugar bonito, água cristalina e gente feia! Aff... Só farofeiros. Mas, como somos guerreiros...

Vesti uma sunga, coloquei shorts e camiseta e fui pro carro. Quando entrei notei que o Paulinho, dono do carro, estava só de sunga. Falei que ele era maluco e que não estávamos na praia. Ele disse que só ia sair do carro lá e quando voltasse e que por isso não tinha problema.

Pra chegar lá são mais de 30 quilômetros de asfalto, quando então entramos numa estradinha de terra batida, estreita e escorregadia. Acho que uns 10 quilômetros.

Enquanto estávamos no asfalto, tudo bem, mas quando entramos na estrada de terra começou o sufoco. O Paulinho achava que estava fazendo rallie, tamanha velocidade que andava.

Tentei dar uns toques pra ele, mas recebi um “ta tudo sob controle, fica frio”. “Me prendi” no cinto de segurança e rezei. Graças a Deus, chegamos bem.

Lá foi só festa. A gente, no meio daquela barangada, éramos verdadeiros Reis. Sabe, de tempos em tempos, quando minha auto-estima despenca, sempre dou um pulinho lá. Volto me achando o Brad Pit tupiniquim.

Pois bem, o Paulinho saiu de sunga e enquanto a gente tirava a roupa pra deixar no carro, ele nos zuava, dizendo que devíamos ter sido espertos como ele e ido apenas de sunga.

Cervejas, paqueras (arghh), vários pulos, braçadas, passeios pelo “resort barangirl” e o tempo começou a mudar. No horizonte nuvens pretas se formavam e o céu escurecia. O povo começou a pegar o que sobrou da farofa e do frango e ir embora.

Como tínhamos uns 10 kms. de estrada de terra pra percorrer, seguimos o povo antes que aquele temporal chegasse e virasse um pântano só, correndo o risco até de ficarmos atolados lá.

Aquele monte de carro voltando, em fila indiana, muita poeira, o tempo cada vez mais fechado quando, de repente, um estouro. Furou o pneu traseiro do nosso carro.

Difícil foi achar um lugar pra estacionar naquela estradinha estreita e com aquele monte de gente voltando. Descemos e começamos a trocar o pneu, engolindo a poeira dos carros que passavam. Enquanto nós estávamos vestidos, o Paulinho ajudava apenas de sunga. Uma gracinha (rsrsrs).

Solidariedade zero do povo. Todos preocupados em ir embora antes da chuva. Na troca do pneu, notamos que o pneu estepe estava feio, acabado, a um passo do final. Trocamos, entramos no carro e falei pro Paulinho ir devagar, pois agora estávamos sem estepe.

Ele veio devagar. Saímos da estrada de terra e pegamos o asfalto. No trajeto conversas, piadas, planos... quando de repente: outro estouro. Lá se foi o estepe pra cucuias. Claro, do jeito que ele estava, durou muito até. Achava que não andaria nem um quilômetro.

Mas a questão agora não era reclamar do pneu velho e sim o que fazer sem um estepe. Tentamos o celular. Ligamos para a SP Vias, mas nos informaram que havia ocorrido um acidente e todos os carros estavam trabalhando naquele local.

Tentamos pedir carona. Mas com a chuva, ninguém se habilitava a parar. Ainda mais com o Paulinho de sunga, de um lado pro outro da pista. Nem precisa dizer que todo carro que passava buzinava pra ele.

A chuva apertou. E esfriou. E ele de sunga. A gente ria muito. Após 3 horas esperando o resgate, achamos por bem irmos caminhando até um posto que havia há uns dois quilômetros, tentar arrumar um dos pneus furados.

Mas quem iria? Resolvemos tirar no palitinho. O Paulinho quis ficar de fora dizendo ser o dono do carro, mas no fundo sabíamos que era porque ele estava só de sunga. Após muitas brigas e discussões, ficou acertado que iriam dois. Os dois que perdessem.

Claro que o Sandro, com seu jeito malandro, fez com que os perdedores fossem o Alex e.... claro... o Paulinho! Outra briga. Ele não queria ir. E o Alex disse que sozinho não iria. Briga daqui, briga dali e lá foram os dois.

O Paulinho pediu o meu e o shorts do Sandro emprestado, mas claro que não íamos dar. A graça estava em ver ele desaparecer no infinito do asfalto apenas de sunga enquanto o Alex empurrava o pneu.

Pois bem, tão logo eles sumiram, eu peguei o celular, liguei pro meu pai e pedi pra que ele viesse até onde estávamos e para que pegássemos o pneu estepe do seu carro, afinal o carro era do mesmo modelo do Paulinho.

Ele veio, eu e o Sandro pegamos o pneu e trocamos. Agradeci meu pai, me despedi e entramos no carro, esperando os dois voltarem.

Vocês devem estar se perguntando porque não liguei antes. É que eu tava me divertindo muito com o Paulinho de sunga no asfalto e os carros passando e buzinando. Deixei rolar até ver onde iria dar isso. Quando eles foram arrumar o pneu, perdeu a graça. Dai que liguei.

Mas voltando: após mais de uma hora, vimos o Paulinho e o Alex voltando. Como estávamos numa leve descida, notamos que algumas vezes o pneu escapava deles e eles tinham que correr pra segurar.

Quando chegaram no carro, eu e o Sandro fingíamos dormir. Estava escuro, pois já devia ser umas 10 da noite. Eles chegaram xingando, fazendo barulho e pedindo pra trocar logo, pra irem embora. Principalmente o Paulinho, que não sei porque, era o mais estressado (depois o Alex me contou que no Posto os caminhoneiros zuaram muito com ele).

Quando o Paulinho foi trocar o pneu, reparou que estava cheio. Sem entender, perguntou o que havia acontecido e respondi que eu e o Sandro havíamos enchido assoprando, cada hora um.

Aquela noite aprendi um monte de palavrões novos, graças ao Paulinho. Mas só contei pra ele como “arrumamos” o pneu depois que ele me deixou em casa, pois não queria correr o risco de ser deixado na estrada a noite.

Lembranças... (26)

O relato abaixo escrevi em Agosto de 2003. Realmente é muito extenso e não tenho a pretenção de que vocês leiam. Aliás, nem precisa, pois postei apenas por ser um registro histórico de uma época da minha vida. Aos que tiverem paciencia de ler, aviso que encontrarão um relato de uma fase de minha vida entre 1998 e 2003. Na verdade, a melhor fase de minha vida. Onde conheci os irmãos que trago até hoje em meu coração.



OS RITAS: Uma história de amizade

Lá estava eu: 30 anos e recém saído de um casamento. A insegurança me dominava e a auto-estima estava bem próxima do zero. De bom, apenas a liberdade. Mas como usá-la? Com quem? Meus amigos estavam todos casados. A cidade infestada de jovens. E eu, aos 30 anos, me sentindo velho, o “tiozinho da Sukita”.

Ainda tentei sair. Fui no Karaokê sozinho (antiga danceteria). Mas não sabia mais como abordar uma garota. Aliás, acho que nunca soube fazer isso. Sem contar aquele sentimento de “velho” que insistia em me perseguir. Deveriam pensar o quê um “trintão” estava fazendo naquele lugar tão cheio de jovens. Que ridículo eu me sentia no Karaokê. Bastou um pequeno “fora” e fui pra casa mais cedo. Disposto a não mais sair de lá. Ia comprar livros, ler, navegar na internet e, com muita sorte, arranjar uma mulher divorciada, mais ou menos da minha idade, com filhos, e casar novamente. Esse era o meu destino. Ou pelo menos eu achava que era.

Na faculdade, conheci a Jú. A Juliana Prestes. Ela me apresentou a Gisele e a Aline. Não sei porque, mas de cara, pintou um clima de amizade muito forte. Era como se a gente já se conhecesse há vários anos. Tiraram-me de casa. Levaram-me pros bailes, pra praça. E eu me sentindo velho. Tornei-me dependente delas. Não colocava os pés pra fora de casa se não fosse com elas. Começamos a sair todos os finais de semana. Elas fizeram uma revolução no meu guarda-roupa. Até saíram comigo pra comprar roupas. Roupas de jovem,é claro! Tornamo-nos inseparáveis. Eram minhas irmãzinhas. Nos atendíamos. Um cuidava do outro.

Daquela amizade, apareceram também a Clau e a Maisa. Juntaram-se a nós. Em 1999, no meu aniversário, em outubro, elas me fizeram uma festa surpresa. Já fazia uns 15 anos que eu não ganhava uma. Do nada, apareceu o Sandro Preto, meu primo, que trouxe com ele um amigo: o Alex. Eles tinham acabado de chegar do ensaio da Banda do Jair. Fomos apresentados. Me interessei pela Banda. Contei-lhes que o Jair havia me convidado a entrar e eu tinha recusado. Pedi a eles que falassem com o Jair por mim. Dias depois, o Jair me convidou a entrar pra Banda Marcial do Metodista.
Já me sentindo um pouco mais jovem, resolvi aceitar o convite que o Jair tinha feito há um ano atrás. Entrar para a Banda. Só não tinha aceitado antes porque minha ex-esposa não havia gostado nem um pouco da idéia. Agora eu podia. Afinal, eu era livre. E minhas irmãzinhas me incentivaram.

Meu primeiro ensaio. Peguei o marcial e as baquetas. Não sabia nem como amarrá-las nos dedos. O Ivan me ensinou. Vi dois caras girando-as no ar. Não sabia que tinha que fazer isso pra tocar marcial. Achava apenas que tinha que bater naquele bumbo, sem fazer alegorias. Perguntei como eles faziam aquilo. Que me ensinassem. O mais baixinho achou que eu estava “tirando” da cara dele. O mais alto foi na dele e ficou esperto comigo, também pensando o mesmo. Mas mesmo assim, me deram as primeiras explicações de como fazer aqueles malabarismos com as baquetas. Esses dois caras eram o Carlão e o Morlock.

Lá na Banda reencontrei o Sandro e o Alex. Tal qual aconteceu com as meninas, nossa amizade nasceu parecendo já existir de muito tempo. Convida-los para sair comigo e com as meninas foi um passo. E assim ganhei mais quatro irmãos.

O Ridemar já estava na Banda, mas não me lembro de tê-lo conhecido lá. Acho que fui apresentado a ele na Atlanta ou em casa, numa das nossas festinhas. O Fabiano veio junto com a Clau e a Maisa. Pronto! Ganhei mais dois irmãos pra minha família.

Éramos inseparáveis. Os encontros aconteciam todos em casa, antes de cada baile. Eram na quinta, sexta e sábado. No domingo, o encontro era na praça. A cidade tinha várias turmas, então, porque não criarmos a nossa? Nascia ali, “Os Rita”, que era uma abreviação de “Os Ritardados”... Pros outros, uma babaquice, um bando de gente com apelido de mulher. Pra nós, uma família.

Nunca tentei me impor a eles pela minha idade ou vivência. Acredito que ensinei muito, mas aprendi muito, mas muito mais com eles. Cada um tinha algo a me ensinar. E não demorei muito a aprender. Posso dizer, com toda certeza, que renasci ali, naquele aniversário na casa da Gisele, numa tarde de novembro. E cresci n´Os Rita. Desenvolvi n´Os Rita. Vivi n´Os Rita. Amei n´Os Rita. E sinto falta d´Os Rita. Muita falta.

Quantas histórias protagonizamos... Eu, que vivia muito no passado, no início, repetia sempre: “Quando eu tinha a minha turma”... ou “Na minha turma”... ou ainda “O Sedam era assim” (Sedam significa Sociedade Etílica e Desportiva Andorinhas do Me, minha antiga turma). Sei agora que isso incomodava meus novos amigos. O fato de eu estar numa turma, falando de outra, parecia que eu gostava mais daquela do que desta. Mas não era assim. Apenas eu era saudosista demais.

O tempo, o carinho, a compreensão e a amizade d´Os Rita, me fizeram esquecer a outra turma. Eles foram importantes pra mim, sim. Mas Os Rita foram e são muito mais. Eles me completavam. Cada um era uma parte de um todo dentro de um mecanismo, chamado Os Rita.

As histórias não param de brotar de minhas lembranças, e se eu for contar uma a uma, acabaria por escrever um livro. Mas algumas merecem destaque especial, senão pelos protagonistas, pelo menos por mim. Foram histórias que me marcaram, que por alguma razão, ficaram mais fortemente gravadas na minha memória e no meu coração.

Na Atlanta, o Morlock dando uns socos num cara que tava brigando foi inesquecível. Ele não tinha nada a ver com a briga. Mas naquela época, ele adorava uma pancadaria. Eu puxei-o. Falei que esse não era o espírito da turma. Éramos de paz. Queria ver ele abraçado com mulheres e não rolando com homens. Parece que ele entendeu. Tanto que virou uma moça de tão dócil. Nunca mais brigou.

Nosso primeiro “inimigo secreto”. Que bagunça. Todos incorporaram a brincadeira. Fomos na Cantina Mabella. Aliás, não saíamos de lá. Era a febre do videokê. Engraçado, né? O que o pessoal da Cantina Mabella devia pensar de mim. Há pouco tempo atrás eu entrava com minha esposa e meus amigos, advogados, dentistas, médicos e engenheiros. Gastávamos verdadeiras fortunas. E agora eu estava lá, solteiro, com um pessoal que tinha praticamente a metade da minha idade. Mas garanto que os donos do Mabella e os garçons nunca viram naquela época a felicidade que eu estampava em meu rosto com essa nova turma. Eu (e principalmente eles !!!) não tínhamos etiqueta, não nos preocupávamos se estávamos chamando a atenção ou não, fosse por sermos bregas, alegres, divertidos ou descontraídos. Nosso mundo estava ali, naquela mesa. O resto não importava. Nossa felicidade, sim, importava.

As festas em casa eram uma delícia. Semanalmente tinha que dividir minha janta com o Fabiano, que já vinha “jantado” da casa dele. Sem contar que nem sempre o pessoal trazia o que beber. Mas sempre bebiam em casa. Tudo bem que no dia seguinte eu quase me acabava arrumando a bagunça. Mas arrumava feliz. Com prazer. É... Acho que estou ficando velho... Hoje não dou mais festas por causa do dia seguinte...

O pessoal ia chegando aos poucos. Todos se inteirando... Eu sentia que a casa era deles. E eles também. Fazíamos o “aquecimento” e íamos pra noite. Noitadas memoráveis. Mas sempre juntos. Quando alguém arranjava alguma garota, trazia-a logo pra perto de nós. Nada de ficar nas quebradas. Exceto o Carlão, que tinha que se esconder quando ficava com alguém, pois a baixinha ou alguém poderia vê-lo. Mas sempre ele voltava pro meio da gente. E com a maior cara lavada. Era engraçado. Demorasse 10 minutos e o Carlão não viesse, já sabia...

Lembro de uma vez, no Karaokê, que ele pediu pra eu ficar com a baixinha, no pátio que tinha lá fora, que ele ia buscar uma cerveja. Eu nem tinha papo com ela. Fiquei mais de uma hora. E nada do Carlão voltar. Cervejinha demorada essa... De onde estava eu podia ver o Carlão beijando uma menina. E a toda hora eu tinha que segurar a baixinha que queria ir procurar ele. Nem no banheiro eu a deixei ir. Coitada...

Lembro também nas horas de conversa com o Ridemar, tentando convencê-lo a não ir agora pro Japão (ele é descendente). Tentava explicar-lhe que o Japão não ia sair de lá. Mas que deveria ser a última tentativa na sua vida. Somente depois de não conseguir nada aqui no Brasil, ele deveria tentar a sorte lá. Não sei se deu certo, mas ele ficou, está numa banda de rock, onde é um grande vocalista, trabalha na Prefeitura e já está no segundo ano de Direito.

Nossa união causava ciúmes, inveja. Mas acredito que não de uma maneira ruim. E sim de uma maneira boa. Todos que nos viam gostariam de ter amigos como nós éramos. Isso era uma certeza. Não nos envolvíamos em brigas. Não ficávamos bêbados. Não mexíamos com drogas. Éramos da paz. E das mulheres!!! E sempre juntos. Muitos quiseram entrar pra turma. Mas não era questão de ser aceito pelo pessoal. Era questão de aceitar as regras. Mas que regras eram essas? Sei lá. Ninguém nunca estipulou regra alguma. Mas elas sempre existiram. E todos as cumpriam fielmente.

Se não íamos a algum baile, e isso era raro, o baile não era o mesmo. Faltava algo. “Aqueles caras” que fechavam uma roda e dançavam, sem parar, a noite toda. Muitas meninas começaram a se aproximar. Afinal, éramos alegres, extrovertidos, e porque não dizer, bonitos e interessantes. Fizemos amizades com todos os seguranças e barmen´s. Nem revistavam mais a gente.

E a amizade fortalecia cada dia mais. Fomos pra praia. Até hoje sinto falta do Ridemar. Faltou ele com a gente. Mas ganhamos dois outros irmãos: O Nando (meu primo) e o Paulinho. O engraçado é que o Paulinho só entrou por causa do Nando. Não queríamos o Paulinho na turma. Dois dias antes de irmos pra praia, o Nando falou que não ia mais com a gente, porque não queríamos o Paulinho junto. Fizemos uma reunião e pra que o Nando fosse aceitamos levar o Paulinho. Que grata surpresa ele nos deu. Hoje é nosso irmão também. Parece que o Nando veio pra Itapeva só pra nos apresentar o Paulinho. Obrigado Nando!

Aprontamos mil e uma na praia. Eu já me sentia da idade deles. Sem complexo, sem grilos, novinho em folha. Acompanhava o pique da “criançada”. Aliás, como até hoje os chamo: “meus meninos”. Me emociono até hoje quando me lembro do Carlão e do Morlock falando do que suas mães achavam de mim. As palavras de suas mães, transmitidas por eles, até hoje ecoam em meus ouvidos e em meu coração. Minha responsabilidade tinha aumentado. Agora,sim, eram minhas crianças mesmo. Também me emociono com o carinho que o pai do Ridemar tem por mim. Nada pagará ou apagará isso.

Acreditem: cansei (no bom sentido) de receber ligações dos pais de meus amigos me agradecendo e pedindo pra atende-los. E confesso que nunca precisei fazer isso. Eles cresceram. Se viraram sozinhos.

Na praia, o Paulinho deu sua primeira mancada: por insistência dele, fomos ao Ilha Porchat. Lá sim, o carnaval era show, né Paulinho? A noite só valeu porque encontramos uma nariguda lá. Nos mais, até de trenzinho pulamos o carnaval, tão familiar era o recinto. Aff!!!

Outras coisas interessantes também aconteceram naquele carnaval. Como o jacaré que o Morlock pegou (?) nas “violentas” ondas do Guarujá. Ou será que foi o Jacaré que pegou ele? Só sei que o nariz dele ficou no vivo. Ralou legal. A travessia da balsa era uma festa. Portas abertas, som alto e todos dançando ao lado do carro. Na praia, andávamos em fila. Lateral, é claro! A noite, dormíamos amontoados naquele micro-apartamento. Descobrimos a Danceteria Avelino´s. Foi o paraíso. Valeu pelo carnaval. Quanta gente. O Morlock se deu bem. Uma loira, linda, do nada, o agarrou e beijou na nossa frente. Acho que foi de dó pelo nariz esfolado... Fizemos nossa rodinha e dançamos, dançamos, dançamos. Até nos camarotes nós entramos. Lançamos a maneira itapevense de dançar tecno. Alguns nos olhavam rindo, achando ridículo. Outros, ensaiavam alguns passos. Ou devo dizer, braços...

Voltamos ainda mais fortalecidos na nossa amizade. E já fazendo planos pro próximo ano.

Fomos novamente pra praia no ano seguinte. Dessa vez, mais um irmão entrou pra turma: o Suski. Mas o Morlock não foi. Nem o Ride. Choramos na passagem de ano. Abraçados. Mas felizes. Estávamos longe de alguns amigos e dos familiares. Mas estávamos juntos. Rezamos, choramos e fomos pra festa. O Suski conseguiu ficar com uma loira linda. Já o Paulinho... Aff, que baranga... Fomos buscar o Carlão na Praia Grande. Duas horas de carro até chegar na casa dele. Nunca xingamos tanto alguém... Ele veio e ficou a gente... Perdoamos ele...

As viagens da Banda do Metodista também era uma festa a parte. Sempre juntos. Em Barretos, era só festa. Não desgrudávamos uns dos outros. Era incrível como gostos e vontades diferentes de muitos eram democraticamente reduzidos a uma só ação. Na primeira vez de Barretos, lembro-me da minha vontade enorme de tomar sorvete. E a macaquice que fiz quando achei uma barraquinha de sorvete. Que piada.

Como esquecer da “festa” aqui em casa com a Bavária? O Ride ficou enchendo nosso saco uns dois meses pra fazermos outra. Acho que ele queria perder a virgindade... Ou então a namorada que o Morlock arrumou. No início, todos dando a maior força. Dias depois, com ele já cego de amor (ela realmente era linda!), descobrimos uns podres da menina. Como contar? Amigo, sei que você sofreu muito naquela época. Mas te admiro por não ter demonstrado e nem se abatido. Você foi muito forte. Antes disso, veio a Curitibana. Muito sexo, né Morlock? Depois outro amor louco: a Pámela. Esse, até hoje penso ser um caso mal resolvido. Acho que ainda não acabou... Haverá desdobramentos...

Éramos esportistas também. Criamos até o Ritabol... Jogávamos na praça. Com um monte de bobos olhando pra nós. As tardes ensolaradas dos finais de semana, passávamos no Rio Verde ou no Rio das Vacas. Éramos nadadores de rio. Verdadeiros bagres! Descobrimos até um local, no Rio das Vacas, de difícil acesso. Batizamos de “Lugar d´Os Rita”. Alguns até levaram tombos memoráveis ao ir ou voltar de lá, né Carlão?

Para chegar lá, tínhamos que pegar a estrada. Mais de 30km de asfalto. Íamos comentando os acontecimentos do baile da noite anterior. Quem ficou com quem. Teve até aquela vez que furou dois pneus do carro do Paulinho. Ficamos parados na estrada até as 9h00 da noite. E o Paulinho só de sunga. Que ridículo... Outra viagem memorável foi no aniversário de Itararé. O Paulinho e o Sandro resolveram ir pra lá. Eu e o Morlock iríamos pra Buri. Antes do Taquarivaí, resolver mudar e fomos pra Itararé. Encontramos os dois lá, que se espantaram. Bebemos, dançamos e na hora de voltar, meu co-piloto Morlock engatou um sono ferrado no banco do carro. Vim a 60km/h, morrendo de sono. Foram os 60km mais longos de minha vida.

Na Atlanta, criamos o Cantinho d´Os Rita. Era na parte superior, onde só ficavam casais. Ninguém ficava lá. Fomos os primeiros. Depois de um tempo, a parte superior lotava. Tínhamos que chegar antes, senão perdíamos o lugar. No Karaokê também tinha o Canto d´Os Rita. E, lógico, a Acrópolis não podia ficar de fora. Também teve o nosso cantinho. Pena que hoje ele anda muito pouco freqüentado.

Falando em Acrópolis, como se esquecer daqueles memoráveis bailes do Halloween? O primeiro foi mágico. Nos vestimos e pintamos em casa. Subimos todos a pé. Alguns com vergonha de sair na rua daquele jeito. Na praça, paramos tudo. Se não me engano, o Sandro andou filmando esse primeiro Halloween. Preciso ver essa fita. Depois, esperávamos ansiosamente o outro Halloween. Até prá Itaberá fomos num baile das bruxas. O Suski estrapolou e andou fazendo umas escolhas um tanto quanto erradas no mulherio daquela cidade. Como o baile estava chato, resolvemos vir pra Itapeva. E fantasiados, fomos no Karaokê. Lá, o pessoal não entendeu muito o que estava acontecendo. Afinal, o Dia das Bruxas já tinha passado. Mas, em se tratando d´Os Rita, tudo era possível.

Num outro Halloween, o Fabiano foi o protagonista de provar a união d´Os Rita. Brigou com a namorada (ou será que foi ela que brigou com ele?), bebeu muito (um copo e meio de cerveja) e desmaiou. No meio do Baile. Todos saíram, sem se importar se o Baile estava apenas no começo. Fomos parar na Santa Casa, para aplicar glicose no Fabiano. Depois, o levamos pra casa. E ainda ficamos de tocaia, para impedir as suas fugas. E todos juntos. Até o Jebinha ficou lá. Aliás, ele ajudou muito.

Falando no Jebinha, tenho muitas saudades dele. Queria que ele se transformasse em mais um irmãozinho meu. Mas acho que falhei. Sinto um dor muito grande por isso. Queria-o perto de mim, perto de nós.

Nessa época, mais uma pessoa passou a fazer parte de minha vida. Essa, de forma diferente. Não como irmã. Mas como mulher. Ela conhecia os meninos e aprovava minha amizade com eles. Nunca reclamou ou proibiu de nada com eles. Estar com eles era estar com Deus. Pois com Deus estamos bem, estamos felizes, estamos em paz. Era isso que eu sentia e ela sabia. E sabe até hoje. Gi, eu te amo!

Os Rita me deram todo o apoio pra sair de uma depressão violenta que enfrentei no final de 98 e a agüentar o ritmo da faculdade por longos 5 anos. Na minha formatura, não tive dúvidas em convidá-los para compartilhar comigo esse momento marcante de minha vida. Deixei parentes e familiares para leva-los comigo. Mais uma lembrança pra ficar na história de minha vida.

Poderia definir esse pessoal em algumas poucas palavras, tentando destacar a maior qualidade que neles eu via. O Carlão, destaco o coração de criança e seu amor pela família. O Morlock, a sua liderança. O Suski, seu gênio forte. O Fabiano, o chefe de família. O Ride, a inteligência, Era muito pensativo e desconfiado. O Alex, o dono do baile. O Sandro, o esperto. O Paulinho, o lutador. O Nando, seu coração de leão. Quanto as meninas, prefiro não defini-las em poucas palavras. Não sei porque.

Mais tarde, outros entraram pr´Os Rita. Mas, infelizmente, pegaram a fase decadente, o final (?). Não vivenciaram a melhor fase. Mas nem por isso são desmerecedores de fazer parte dessa família chamada Rita.

Hoje, pelo que percebo, d´Os Rita sobrou apenas o comprimento. Nada mais. Todos se espalharam. O Fabiano casou. O Alex, o Nando e o Paulinho foram embora. O Suski e o Morlock sempre estão juntos. O Ridemar, não pelo namoro, mas pelo rumo de sua vida, sumiu. O Carlão, sei lá o que anda fazendo. Eu, tô formado e namorando.

Sinto falta. Muita falta. Me dói o coração quando vou na Avenida ou na Acrópolis e vejo um de cada lado. Ou então quando fico sabendo que uns foram no TNT enquanto outros foram na Acrópolis ou noutro lugar. Isso não acontecia antes. Eram todos juntos.

Vejo minha casa vazia nas sextas e sábados. Ninguém na Praça no domingo a tarde. Fico no canto d´Os Rita na Acrópolis. Sozinho. Ou melhor, com a Gi. Falta algo. Encontro-os dispersados pelo salão. Um de cada lado, com uma nova turma, novos amigos. Me dói muito.

O sentimento permanecerá pra sempre. O carinho, o amor, isso nunca será apagado. Eu os amo com o mais puro e sublime sentido da palavra amor. Um amor que não exige trocas, regalias ou privações. Eu os amo da forma que são. Não sei se isso é uma despedida. Não sei se voltaremos a nos reunir da forma que fazíamos. As pessoas crescem. Tomam seus rumos. Mudam de ideais e muitas vezes, fases de suas vidas são encerradas, e novas fases iniciadas. O mundo é assim. Cruel pela rapidez dos momentos maravilhosos e marcantes pela demora dos momentos tristes.

Se quando nos reunimos, eu falava incessantemente da minha antiga turma, como exemplo de união, no futuro, com toda a certeza, falarei diariamente para meus filhos da união, do amor, do carinho e da solidariedade d´Os Rita. Eles sempre serão o ponto de referência de amizade e companheirismo para mim e minha futura família.

Não quero aqui pensar demais no que passou. Não tem volta. Seria falso demais se tentássemos retornar as raízes. A vida mudou e nós mudamos também. Hoje nossa amizade, com certeza, não seria mais como fora antigamente. Pode, sim, ser melhor, muito melhor, se adaptada aos novos tempos em que vivemos, aos novos pensamentos e aos novos ideais. Não precisamos mais ir pro Rio das Vacas, ficarmos na Praça ou Avenida, pintarmos pro Halloween. Muito embora isso ainda possa acontecer, podemos nos moldar aos novos tempos, com os novos amigos. Mas sendo sempre Os Rita. Que nunca foi marcado pelo lugar em que estavam, e sim, pela união, onde quer que estivessem.

Amo vocês, do fundo do meu coração. Sinto muita falta. Não quero que esta seja uma despedida. Nem um até breve. Mas cada um traça o seu caminho da forma que lhe convém. Estou aqui. Feliz por ter encontrado a minha cara-metade. E triste por ter me distanciado de pessoas que ainda habitam meu coração. E habitarão por toda a minha vida.

Deus escreve certo por linhas tortas, já diz o ditado. Foi necessário eu me separar de uma pessoa que eu julgava amar loucamente, sofrer o que só eu sei o que sofri, entrar em depressão média (segundo avaliação médica), pra conhecer uma turma maravilhosa e o verdadeiro amor da minha vida. Ao lado deles, passei pelos momentos mais difíceis da minha vida. Cheguei a passar fome por não ter dinheiro pra comprar comida ou cigarro. Talvez muitos não souberam disso. Descobri o que a falta de dinheiro pode fazer com uma pessoa. E graças ao bom Deus, na pior fase de minha vida, Ele me colocou ao lado de pessoas maravilhosas e me deu a Giovanna. Hoje, vivendo uma situação um pouco melhor, com várias portas se abrindo e com muitas perspectivas à frente, olho pra trás e não consigo me lembrar desse sofrimento. Somente vejo vários amigos ao meu lado. Na pior fase, quando quase não podia caminhar com minhas próprias pernas, fui carregado por anjos, que Deus me enviou. Pelos Os Rita.

Juliana, Gisele, Aline, Morlock, Carlão, Sandro, Alex, Nando, Paulinho, Ridemar, Fabiano, Jerônimo e Suski:

Obrigado, meus amigos. Obrigado, meus irmãos. Obrigado, meus anjos.

Beijos em seus corações. Estejam sempre com Deus!

Neto (Rita-Mór)

(Gostaria que mostrassem esta carta a seus pais, familiares
e amigos, pra que todos soubessem QUEM foram OS RITA.)

****************
Atualizando apenas. Juliana casou. Gisele casou e tem filhos. Morlock se formou e ta namorando há mais de 5 anos. Carlão está namorando há uns 3 anos e fazendo faculdade. Sandro foi trabalhar em Praia Grande. Alex mora em Itapetininga e reatou seu casamento. Nando está morando nos EUA, casado com uma brasileira e tem um filho. Paulinho está se formando em Medicina, depois de morar 5 anos fora do Brasil. Ride está namorando há mais de 3 anos e trabalha no Fórum de Itapeva e se formou em Direito. Fabiano é profesor, casou e vai ser pai. Jerônimo casou, separou e casou de novo e tem um filho, além de ter se formado também. Suski continua do mesmo jeito: solteiro e trabalhando na Zoggy (antiga Acrópolis). E eu, há mais de 3 anos não estou mais com a Giovanna. Digamos que tô como o Suski: solteiro e do mesmo jeito. E a danceteria Karaokê nem existe mais.

Pílulas... (9)

Rico a partir dos 40 anos!

Nunca pensei que a partir dos 40 anos pudéssemos ter uma riqueza tão grande:

- Prata nos cabelos;
- Ouro nos dentes;
- Pedras nos rins;
- Açúcar no sangue;
- Chumbo nos pés;
- Ferro nas articulações;
- E uma fonte inesgotável de gás natural..."

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Pensando... (15)

Quero morrer!

Não sei porquê mas hoje me veio esse pensamento. Do nada. Sentado no sofá de casa, vendo TV, pensei: “Chega! Cansei! Quero morrer!”.

Aprofundei meus pensamentos e tentei descobrir o porquê queria isso. Uma coisa que nunca antes tinha me passado pela cabeça.

Quero morrer porque já vivi bastante. Porque já fiz praticamente tudo que queria. Porque já amei e fui amado. Porque já fui rico, já fui pobre, feliz e triste, amigo e inimigo.

Quero morrer porque não quero envelhecer. Tenho 42 anos e sei que daqui pra frente a minha vida entrará numa curva descendente, onde meu corpo ficará cada dia mais debilitado, fraco e frágil.

Não quero que meus amigos me vejam envelhecer, ficar debilitado e enrugado. Não quero depender de pessoas pra “sobreviver”. Não tenho ninguém mesmo. Só meus amigos. Mas eles...

Meus amigos todos estão namorando, casando, indo embora. Não tenho mais paciência pra fazer novos amigos.

Nas baladas, sempre sou o mais velho. Cansei de olhares do tipo “que esse velho está fazendo aqui?”.

Cansei de lutar contra o tempo. Cansei de lutar por dinheiro. Cansei de trabalhar. Cansei de ter sonhos. Faz tempo que não me realizo.

Há anos apenas luto. Luto. Luto.

Estive pior. Muito pior. Até fome passei. Estive no fundo do poço. E estou falando de um passado muitoooooo recente, coisa de 5 ou 6 anos. Quase ninguém sabe disso

Mas o que eu quero da vida? O que quero pro futuro?

Nada é o que eu quero. Não tenho sonhos. Não tenho desejos. Não tenho ambições. Não tenho objetivos. Não quero um carro próprio. Não quero uma casa minha. Não quero uma viagem. Não quero nada.

Então porque estou vivendo? Apenas pra ganhar dinheiro para comer, beber e trabalhar mais.

Pra que isso? Onde isso me levará? Virou um círculo vicioso que não me levará à lugar nenhum.

Cansei. Talvez por isso eu queira morrer.

É... Cansei mesmo!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Lembranças... (25)

Eu estava casado e havia acabado de nascer o primogênito de um casal de amigos. O pai da criança era meu amigo de infância e como nossos casamentos foram próximos, com um sendo padrinho do outro em seu casamento, ficamos ainda mais ligados.

Devido essa ligação, veio o convite pra batizar seu filho, que foi prontamente aceito.

Acompanhamos o casal à igreja para as providências de praxe e soubemos que teríamos que fazer Curso de Padrinhos (nem sabia que tinha isso). E lá fomos nós, num final de semana inteiro ouvir palestras e mais palestras.

Feito o curso, foi marcado a data do batizado. Seria em duas semanas. Num sábado a noite.

Vocês sabem como é mulher, né? Tem que fazer roupa nova pra tudo. Ainda mais um batizado. E lá foram nossas esposas atrás de tecidos, costureiras, cabeleireiros, manicure, pedicure, roupas pro menino e, porque não, pros maridos também.

Pra nós ficou a árdua tarefa de preparar a festa, encomendar salgadinhos, avisar familiares (deles), escolher e preparar o local, escolher a cerveja. Tarefa tipicamente masculina.

Chegou o dia. Ajudei nos preparativos da festa que seria nos fundos da casa do pai de meu amigo, enquanto nossas esposas se enfurnavam em salões de beleza. Ajudei também a recepcionar os parentes que vinham de outras cidades. A festa seria grande, pois era o primeiro neto dos pais de meu amigo.

As esposas corriam com os ajustes finais enquanto eu e ele passamos a tarde toda "experimentando" a cerveja e beliscando os salgadinhos que chegavam. A festa já tinha começado pra gente. E a bebida começava a subir.

Fui pra casa feliz, rindo de tudo e minha esposa já tinha tomado seu banho e começava a se arrumar. Tomei meu banho, vesti a roupa especialmente comprada pra ocasião e fiquei pacientemente esperando minha esposa se arrumar por longos minutos. Claro que o efeito da bebida vespertina me fez ter paciência. Mas mesmo assim tive que apressá-la.

Chegamos à igreja as 8 da noite em ponto, horário marcado pro início da cerimônia de batizado. Na porta estava o casal de amigos com a criança e fomos avisados que os parentes haviam ficado na casa, esperando o termino da cerimônia. Pensei em quantas cervejas eu ia deixar de tomar enquanto durasse a cerimônia. Maldade, mas deveria ter ficado com os parentes...

Na entrada, notamos que estava tendo um casamento. A igreja toda decorada e cheia de gente. Aguardamos do lado de fora, com o neném chorando e as esposas cuidando para não borrar a maquiagem, vez que fazia muito calor e estávamos todos suando naquelas roupas pesadas.


De repente, todos se levantaram na igreja e, lá de fora vimos os noivos saindo. Pararam na porta e ficaram recebendo os cumprimentos dos convidados. O tempo passando e, graças a Deus, o calor diminuindo. Após longos minutos, os noivos entraram num carro que estava estacionado em frente à igreja e saíram, sendo seguidos pelos convidados em seus carros numa costumeira passeata regada a muitas buzinas.

Igreja vazia, entramos. Comentei com meu amigo o fato de não haver mais nenhuma criança a ser batizada, vez que no curso de padrinhos haviam vários casais. Ele me respondeu que também tinha estranhado isso, pois achava que seria batizado comunitário e não somente de seu filho.

Sentamos no último banco e ficamos esperando, esperando, esperando... De repente a luz do fundo da igreja se apagou. E a do altar também. Logo, toda igreja estava às escuras.

Olhei espantado pro vulto do meu amigo no escuro e só pronunciei um “ué...”, que foi cortado pelo choro assustado do meu futuro afilhado.

Rapidamente nos dirigimos para fora da igreja, quando fomos alcançados pelo padre que saia com sua batina dobrada em seus braços. Nessa hora eu já estava ouvindo a esposa de meu amigo, minha futura comadre, reclamar mandando ele ver o que estava havendo.

O padre nos olhava assustado como se estivéssemos perdidos, e meu amigo perguntou sobre o batizado das 8 da noite. Pacientemente ele olhou pro meu amigo, pra criança e disse que não estava sabendo. Mas que iria averiguar.

Nos convidou a entrar na sacristia para conferir a agenda. Lá fomos nós seguindo-o pela escuridão e tropeçando nos bancos da igreja.

Na sacristia, com a luz acesa, o padre começou a consultar a agenda e soltou um sonoro: “ahhhh.... achei... tá aqui mesmo... o batizado é.......... sábado que vem... às 8 horas...”.

Sorte do meu amigo que estávamos dentro da igreja e que sua esposa estava segurando a criança, senão...

Até eu, que adoro zuar meus amigos, fiquei quieto por medo dela. Mas estava quase molhando minhas calças de tanto rir. Acho que se fizesse isso na calça nova, quem apanharia era eu, pois minha esposa tinha as mãos livres.

Meu amigo, com cara desfigurada, ainda tentava argumentar com o padre, dizendo que tinha sido informado que era neste sábado, tentando fazer com que ele batizasse a criança aquela noite a todo custo. Só faltou ele tentar subornar o pobre servo de Deus.

Saimos da igreja e nos dirigimos à festa. Como fomos em carros separados, não sei o que ela deve ter falado pra ele no trajeto. Mas ele deve ter escutado muito até chegar à festa. Sim, festa. Onde estavam todos os parentes que vieram de longe para comemorar o batizado.

Na festa, risadas e mais risadas. Não larguei meu amigo um segundo, pois queria ouvir suas explicações do batizado que não houve. Sei que sai de lá com a barriga doendo de tanto que me diverti com a "desgraça" dele.

Não lembro de ter visto as fotos do batizado. Mas acho que nem meu afilhado deve saber que aquelas fotos foram uma enganação, pois foram tiradas no dia que não houve batizado.

Durante a festa, cansado de rir das explicações de meu amigo, me aproximei de minha esposa que estava conversando com sua quase-comadre. Assunto? Sobre onde iriam comprar tecido, arrumar costureira, marcar cabeleireiro e manicure pro “próximo batizado”. Ia começar tudo de novo.

Pra terminar a divertida noite e zuar pela última vez com meu amigo, disse que só iria no “próximo” batizado se ele me enviasse um convite formal em papel ofício e timbrado, assinado por ele e pela esposa.

Tenho até hoje esse convite guardado, cuja assinatura da esposa, com certeza, ele deve ter falsificado.

Lembranças... (24)

Isso que vou contar, ocorreu em Ponta Grossa também. Acho que muitas pessoas já enganaram amigos assim. No meu caso, foi espontâneo, mas legal.

Eu saia com uma garota há algum tempo e me avisaram que ela era namorada de um cara que traficava drogas na Faculdade.

Fiquei surpreso com o fato dela ter namorado e receoso por estar “mexendo” em propriedade alheia. Principalmente propriedade de um traficante.

Resolvi testá-la e, mesmo sendo totalmente avesso às drogas (ainda hoje sou, exceto cigarro), comentei com ela que fazia tempo que estava procurando por maconha e não onde arranjar.

Ela ouviu e disse que ia ver o que podia fazer. No dia seguinte, usando como desculpa a entrega da droga, apareceu na república com um envelope de plástico lacrado, com uma etiqueta que não me recordo o que estava escrito.

Sua rapidez em providenciar a “encomenda” apenas confirmou que realmente ela tinha fácil acesso ao produto que, conseqüentemente, seria de seu namorado.

Comecei a dar gelo nela, evitando-a, que percebendo se afastou até perdermos contato.

O invólucro ficou em minhas coisas por meses. Graças a Deus, ninguém era chegado nisso. E olha que na época morávamos em sete jovens estudantes, sendo que apenas 3 eram fumantes de “inofensivos” cigarros.

Uma noite, mexendo em minhas coisas, achei o envelope. Estava eu e o Cláudio na república. Levei até ele e sugeri que experimentássemos para ver que gosto tinha.

Como nunca havíamos visto alguém “enrolar” um cigarro de maconha e nem mesmo visto um, pegamos todo o conteúdo do plástico e colocamos dentro de um papel qualquer, que ficou do tamanho de um imenso charuto.

Nossa inexperiência nos fez fumar aquele “charuto” como se fosse cigarro normal: tragando e expelindo a fumaça. Levamos mais de meia hora pra dar cabo naquele cigarrão.

Hoje sei como se deve (ou não deve) fumar aquilo. Sei por ver amigos fumando ou em filmes. Mas na época não tinha idéia. Terminamos e achamos uma "droga" (literalmente), pois nada havia acontecido. Não vimos elefantes voando, não sentimos que estávamos levitando e nem as maçanetas das portas estavam rindo pra gente.

Mas o cheiro ficou no ar... insuportável... fedido... decepção total...

O outros cinco integrantes da república estavam pra chegar e iriam sentir o cheiro. Com certeza teríamos problemas para explicar. Mas o Cláudio teve uma idéia!

Foi até a cozinha e voltou com um saquinho de orégano. Misturamos com fumo que tiramos de um cigarro, enrolamos num papel e ficamos aguardando a galera.

Quando escutamos barulho na porta, prontamente acendemos o cigarro. Eles entraram no quarto do Cláudio e nos encontraram “largados”, falando bobagens e segurando um cigarrinho, que aparentemente, seria do capeta.

Após explicações com voz mole, eles se animaram a experimentar. Um a um, o cigarrinho de orégano foi passando de mão em mão. E eles começaram a "viajar"...

Um dizia que estava vendo elefantes voando, outro levitava, outro ria, outro cantava num inglês fluente que fazia a menina do BBB (que cantava "ui ardi uord") ter inveja e outro falava frases desconexas. Não sei se estavam fazendo teatro ou se o orégano tem propriedade alucinógenas mesmo.

Só sei que, a cada tragada espalhava mais e mais um forte cheiro de pizza no ar, fazendo com que até hoje acreditem terem sido suas primeira experiência com "drogas".

Lembranças... (23)

Morei em Ponta Grossa-PR, por cinco anos, período em que cursei a Faculdade de Processamento de Dados na UEPG. Nesses anos, morei em várias repúblicas, mas sempre com os mesmos amigos.

Numa das últimas, moramos eu, o Cláudio Briganó e o Marcos Dimira. Era um apartamento de 3 quartos, totalmente acarpetado, no centro da cidade.

Cada um tinha seu quarto e cada quarto tinha um diferencial. No meu, havia meu colchão no chão (sem cama) e uma TV minúscula. No do Cláudio, o colchão no chão e um aparelho de som. E no do Marcos, um colchão no chão e um aquecedor elétrico.

Nossas “reuniões” dependiam do interesse do momento. No meu quarto, se queríamos ver TV. No do Cláudio pra ouvir música. E, por fim, quando esfriava muito (que cidade gelada!), no quarto do Marcos, em frente ao aquecedor.

O apartamento ainda possuía uma ampla sala acarpetada (totalmente vazia), uma cozinha enorme com uma geladeira (totalmente vazia) e um fogão (totalmente decorativo).

Em cima da geladeira havia um aquário, onde o Cláudio criava uma tartaruguinha. Acho que ela durou uns 3 meses como integrante da república. Mais precisamente até um feriado prolongado, onde todos viajaram e esqueceram de deixar comida pra ela.

Sei que sentiram pena dela. Nós também. Por isso fizemos um enterro cheio de pompas e até algumas lágrimas, pois ela era minha companheirinha de solidão. Várias vezes tirei-a do aquário, soltei-a na imensa sala acarpetada e contava-lhe meus segredos e problemas, que ouvia enquanto tentava “escapar’ pelo carpete que grudava em suas patinhas.

Acho que se eu a colocasse na cozinha, que era chão de cerâmica, ela fugia. As vezes penso que ela não morreu. Se matou por não agüentar minhas lamentações. Tento não pensar nisso, senão pesa minha consciência.

Mas voltando ao assunto.


Depois que a tartaruguinha foi dessa pra melhor (???), o aquário ficou meses vazio, como que em homenagem póstuma, até que dois amigos, que eram Chefes de Escoteiros e viviam acampando nos trouxeram um presentinho.

Ainda vestidos com aquele ridículo uniforme de escoteiro (onde um adulto veste roupa de criança), o Fábio e o Krüger nos trouxeram do acampamento um novo bichinho de estimação dentro de uma caixinha.

Achamos que seria uma outra tartaruga! Expectativa enquanto eles contavam como foi a “captura” e se dirigiam ao aquário apresentar o animalzinho à seu novo lar.

De dentro de uma caixa caíram dentro do aquário, acreditem, dois escorpiões negros. Um era fêmea e tinha um filhote nas costas. Horríveis. Com aquela pinça na ponta do rabo.

Como o aquário era de vidro (claro, né?) e liso, não haveria perigo deles saírem. O Cláudio ficou responsável por alimentar os bichinhos, caçando moscas e baratas pras suas refeições. Eu não contava meus segredos aos dois, como fazia com a tartaruga. E o Marcos arriscava, às vezes, até a tocá-los com a ponta dos dedos. Maluco.

Lembro que sempre q ia pegar água da geladeira (pois era a única coisa que havia dentro dela), sempre olhava com desconfiança pros bichinhos e temia que eles escapassem, pois nossos colchões eram no chão e a casa toda acarpetada. Imaginava o risco.

Mas também fazíamos moral com as meninas que nos visitavam. Éramos estudantes exóticos com bichinhos de estimação exóticos.

Mais um feriado e todo mundo foi viajar. Na volta, como sempre, cheguei primeiro, por volta das 5 da madrugada. Entrei no apartamento, fui até o quarto, deixei a mochila e voltei beber água. Abri a geladeira, peguei a jarra e enchi o copo. Enquanto matava a sede, passei com os olhos pelo aquário.

Engasguei e a água que descia deliciosamente pela garganta, voltou pra dentro da geladeira numa esborrifada que parece que saiu até pelos olhos.


O aquário estava tombado em cima da geladeira e... vazio!!!!

Imediatamente olhei pro chão, pros meus pés descalços. Nada dos bichinhos. Andei pela sala até o quarto e, com um cabo de vassoura, levantei meu colchão pra procurá-los. Nada. Com cuidado removi lençol, sobrelençol, travesseiro e fronha. Nada também.

Era angustiante saber que havia dois escorpiões negros (o mais venenoso da espécie) soltos pelo apartamento.

Pensei em ir pra outra república ou até mesmo hotel e dormir até achar uma solução, mas não poderia deixar que meus colegas chegassem e fossem surpreendidos. Tinha que ficar e avisá-los.

Fui pra entrada do prédio. O dia amanheceu e por volta das 7 da manhã, chegou o Cláudio. Contei à ele. Subimos, procuramos pelo apartamento e nada. Mais angustia. Decidimos esperar o Marcos e, todos juntos, procurar uma dedetizadora.

Sono, cansaço, fome, cochilos, calor, até que, por volta das 10 da manhã, o Marcão chegou. Explicamos o que acontecia. Ele começou a rir. Rir muito. Sentou no banco de entrada do condomínio, olhava pra gente e ria...

Eu achei que ria de nervoso, quando ele começou a remexer na sua mochila e tirou de dentro uma latinha transparente com nossos amiguinhos dentro.

Pois é! O desgraçado do Marcos levou os escorpiões pra casa, para apresentar pros familiares. Apenas não nos avisou.

Não sei se pelo sono, pelo stress ou o quê, na hora avisei que não queria mais aqueles bichos no apartamento, que aquele susto havia sido um sinal e que deveríamos nos livrar deles, o que foi seguido de imediato pelo Cláudio. O Marcos ficou com dó dos bichinhos, mas como era voto vencido, concordou.

Agora surgia um novo problema: como nos livrar deles?


Soltar na rua era perigoso, pois alguém poderia ser picado. Jogar no lixo, nem pensar. Despejar num bueiro poderia fazê-los voltar. Teríamos que mata-los. Mas como?

Tínhamos ouvido falar que quando eles sentem-se ameaçados picam a si mesmo, suicidando. E que colocá-los no centro de uma roda de fogo os fariam se suicidar. Mas como fazer uma roda de fogo num apartamento todo acarpetado? Realmente não dava.

O Marcos teve uma idéia e enquanto dirigia-se ao banheiro com nossos amiguinhos exóticos condenados à morte, dizia: “Escorpiões são animais que vivem no seco, no deserto. Não são bichos aquáticos. Logo, não sabem nadar. Vamos afogá-los”.


E os jogou na privada, dando descargas e mais descargas em pequenos intervalos, por uns quinze minutos.

Ficamos um longo tempo conversando no banheiro enquanto aguardávamos algum sinal de retorno de nossos ex-mascotes. Nada! Problema resolvido.

Cansados, cada um foi para seu quarto dormir. Sono gostoso porque o problema estava resolvido.


Será mesmo?

Só sei que depois disso ninguém mais se atreveu a sentar no vaso e a tampa ficou sempre abaixada, vedando uma possível volta de nossos ex-amiguinhos desejosos de vingança.

Pensando... (14)

É duro ser duro na vida! Complicado querer uma coisa e “ter” que fazer outra.

Pior é quando não se tem certeza exata do que se quer. Ou tem: a certeza de que não quer machucar alguém.

Tenho muitos anos de vida bem vividos que me dão a certeza de já ter passado quase tudo na vida. Nunca o passado me atormentou. Mas sei que eu o encontrarei no futuro.

Meu passado voltará e irá me perseguir.

Porque não fiquei com ela? Hoje teria alguém do meu lado!

Cada decisão, dois caminhos a escolher. Nem sempre as escolhas são as acertadas. Aliás, nunca são.

Dizem que a pior dor de amor é quando sabemos que ele tem que morrer e não temos coragem de matá-lo.

Sim, já o matei algumas vezes. E a última sempre continua sendo a pior. A mais sofrida. A mais dolorida. E, talvez, a que fará o passado voltar no futuro.

Que será que vale mais? Uma consciência tranqüila e um futuro de dúvidas ou uma consciência pesada e uma tentativa fracassada?

Acho que minha preocupação com o sentimento alheio me diz que é a primeira.

O jeito, então, é aguardar o futuro. E que venha o passado!