segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Lembranças... (22)

Por ser uma história verídica (ou venérea, como diz um amigo meu), fui obrigado a mudar os nomes dos personagens.

Há muito tempo atrás, todo final de ano próximo do Natal, minha turma realizava o tradicional “Amigo Secreto” às avessas. No nosso caso, “Inimigo Secreto”. A graça estava em sacanear o “amigo-inimigo”, com as bolas foras que ele deu durante o ano ou pisar em seu “calo”.

A diversão ficava por conta da criatividade dos participantes que a cada ano se superavam mais e mais. Eu, por ser o mais velho da turma, sempre ganhava presentes no estilo “fralda geriátrica”, Korega Fix (prá dentadura) e até chupetas e mamadeiras (por causa das minhas namoradinhas).

Durante aquele ano, o João e a Maria (lembrando que são nomes fictícios) começaram a se envolver e acabaram por namorar. No melhor estilo Friend´s (Chandler e Mônica), o namoro ficou firme e foi apoiado pela turma toda, que adorou o surgimento de um casal em nosso meio, o que evitaria riscos de termos que admitir alguém de fora que não fosse legal.

No final daquele ano preparamos o “Inimigo Secreto” e fizemos o sorteio. Eu peguei a Maria (nome fictício). Fiquei semanas pensando em como “sacanear” com ela. Que “presente” iria dar? Qual seria o seu “calo”? Qual a bola fora ou a pisada de bola que ela tinha dado?

Conversando com um e outro da turma, sem que levantasse suspeitas, lembrei que ela vivia sendo provocada pela ex do João. Pronto! Estava escolhido o presente: um par de luvas de boxe, um esparadrapo, uma gaze e um mertiolate. E o discurso de entrega seria: “O par de luvas de boxe é prá ela se defender e até bater. O resto é prá caso ela apanhe da ex”. Estava perfeito. Seria a sensação da festa.

Durante nossos encontros, festas e churrascos havia muita zuação entre a turma. E o João e Maria sempre tinham que ouvir “piadinhas” sobre a ex dele, do tipo: "cuidado que ela vai te bater, ela tá montando uma gangue prá pegar os dois, etc".. Esse era um dos calos dos dois.

Até que um dia, sem a Maria estar por perto, o João pediu que não fizesse mais brincadeiras desse tipo pois eles estavam firmes e isso os incomodava.

E eu que já tinha bolado o presente da Maria e a piadinha de entrega, fiquei perdido. Faltava menos de uma semana para a entrega do “Inimigo Secreto”. Eu estava tão feliz com minha escolha que nem tinha pensado em outra coisa.

Não vi alternativa senão ir conversar com o João e pedir autorização prá uma “última” piadinha do gênero. Minha desculpa seria que no “Inimigo Secreto” valia tudo.

Puxei-o de lado e falei:

- Cara, preciso conversar com você!

- Pode falar, respondeu percebendo minha cara de preocupado e nervoso com o assunto.

- Meu... seguinte... olha... (suspirei procurando a melhor maneira de pedir permissão para uma última piada num assunto, agora, super delicado). E continuei: eu peguei a sua mulher e...

E ele me interrompeu:

- Tudo bem, Neto... o Tião e o Juca também já pegaram. Mas isso foi antes da gente namorar. Mas agora é vida nova prá gente. Fique tranqüilo.

Atordoado, eu tentei terminar a frase e me explicar, prá que não ficassem dúvidas sobre o assunto: “cara, eu peguei a sua mulher.... no Inimigo Secreto...”.

Ele ficou vermelho e ainda sorriu. Eu não pude evitar uma sonora gargalhada. Não conseguia parar. Esqueci até do que eu tinha ido falar com ele.

Acabei comprando outro presente, que nem lembro o que era. Mas não perdi a oportunidade de, na hora da entrega, dizer: “A minha inimiga secreta que eu TIREI é a...... Maria!!”.

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