Essa fantasmagórica história foi contada pelo meu pai... Vamos à ela:
Há muito e muitos anos atrás, em Itararé, cidade vizinha de Itapeva, numa fria madrugada de inverno, três amigos bêbados voltavam prá casa quando passaram ao lado do muro do cemitério, que fica muito próximo do centro.
Prá quem não conhece, o cemitério de Itararé possui, em seu interior, lindas capelas e mausoléus onde estão enterradas famílias inteiras de antigos coronéis da cidade. Mas essa beleza é diurna, pois a noite torna-se assustadora.
Aproveitaram o local e a ocasião e começaram a falar sobre fantasmas e almas penadas. Foram unânimes em dizer que fantasmas não existiam e que, mesmo que existisse, não teriam medo se encontrassem com um pela frente. Bêbados, resolveram apostar prá ver quem falava a verdade.
Pela aposta cada um teria que entrar sozinho no cemitério, dirigir-se a um determinado mausoléu pré-escolhido por eles (claro que era o mais fantasmagórico de todos), descer as escadas, chegar ao salão e pregar seu próprio lenço de bolso na parede, com a ajuda de um prego, como prova de que realmente esteve lá. No dia seguinte, o lenço que não estivesse pregado na parede era o mais medroso.
E lá foi o primeiro. Martelo na mão, prego e seu lenço azul claro. O frio da noite parecia que aumentava à medida que entrava no cemitério. Avistou o mausoléu, parou na entrada, respirou fundo e, se escorando pelas paredes, foi descendo as escadas rumo a uma escuridão que não permitia ver nem mesmo a ponta do nariz.
Nas paredes podia sentir argolas, tampas de túmulos, saliências, flores, até que chegou ao outro lado do salão. Segurou o lenço azul claro junto à, apontou o prego e martelou uma, duas vezes... e saiu voando escada acima, tropeçando, sem respirar rumo aos dois amigos que estavam do lado de fora do cemitério.
Entregou o martelo ao segundo apostador, que entrou no cemitério com seu lenço amarelo e dirigiu-se ao mausoléu, tremendo ainda mais que o primeiro. Longos minutos se passaram e de repente eis que surge em disparada, sem ar e pálido de medo, para se juntar aos outros dois.
O terceiro entrou no cemitério com o martelo e seu lenço branco, sumindo na escuridão. Os outros dois aguardavam do lado de fora enquanto “ouviam” aquele silêncio aterrorizante e pássaros noturnos que faziam estranhos barulhos que misturado aos uivos produzidos pelo vento nas folhas das árvores, deixava o local mais sinistro ainda.
Com a demora do terceiro, começaram a ficar preocupados. Tentavam olhar prá escuridão na busca de algo ou alguém, mas não se atreviam a entrar. Talvez pelo medo ou pela aposta, teriam que ficar ali, aguardando sua volta.
De repente um grito ensurdecedor veio de dentro do cemitério. Os dois tremeram e se aproximaram um do outro, quase que se abraçando. No meio da escuridão profunda do cemitério eis que surge o terceiro, numa disparada digna de velocista olímpico, branco como um lençol e gritando desesperadamente, como se estivesse fugindo de algo ou alguém.
Sem pestanejar os outros dois correram antes mesmo que o terceiro chegasse. Numa gritaria louca voaram e só pararam quando chegaram na praça da cidade, um local bem iluminado e menos perigoso.
O terceiro, com a boca seca, faltando de ar e gaguejando muito, começou a se explicar:
- Eu... entrei... tava tudo escuro... aquele silêncio... fui encostando na parede... senti um prego... o outro prego.... peguei o meu lenço e o prego... dei três marteladas bem forte... me virei e... senti que alguém me segurava... pela manga do meu casaco... Meu Deus... puxei e nada... tornei a puxar e senti que estavam me segurando forte... de verdade.... me desesperei... gritei... me mijei todo... não tive coragem de olhar prá trás... tirei meu casado e sai correndo.... não volto nunca mais lá... tem fantasma... tem fantasma lá... eu vi... eu senti ele me segurando... Deus me livre!
Os outros dois ouviram a história enquanto sentiam os pêlos dos braços arrepiando e as orelhas gelando de medo. Decidiram ir prá casa e no dia seguinte, as 8h00 da manhã, voltar ao mausoléu ver se encontravam alguma pista sobre o fantasma. Prá não correr riscos, deram a volta pelo outro lado da cidade, prá não ter que passar por perto do cemitério de novo.
No outro dia, no horário combinado, lá estavam os três na porta do cemitério. Mesmo de dia, notava-se que estavam com medo, muito medo. Entraram, dirigiram-se ao mausoléu e o que foi agarrado pelo fantasma ia atrás dos outros, encolhido, segurando a ponta do casaco de um deles.
Desceram as escadas e tentaram fixar os olhos na escuridão que reinava naquele salão tenebroso. A medida que os olhos foram se acostumando, perceberam o lenço azul claro do primeiro pregado num prego torto. Mais abaixo e ao lado viram o lenço amarelo do segundo também pregado na parede.
Quando a vista se acostumou totalmente, puderam perceber que o terceiro, que era o que estava com mais medo, na ânsia de pregar o lenço e sair rapidamente dali, acabou por pregar a própria manga do casaco na parede. Quando tentou sair, lógico que foi “seguro”. Não pensou duas vezes: Desesperado e achando que estava sendo agarrado por um fantasma, tirou o casaco e correu em disparada, sendo seguido pelos outros dois.
Depois de suspirarem aliviados lá foram os três mentirosos e medrosos amigos beber no Boteco do Tadeu prá acalmar os "nelvos".
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
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UAHSUHSAUHS
ResponderExcluirmuuuito boa a história
Imagineei mesmo que o terceiro tinha 'se pregado' na parede.