O tempo passou. Acho até que tinha me esquecido porquê eu nunca me interessei em montar em cavalos, embora tenha tido várias oportunidades. Agora eu estava com 21 anos. Era alto (ainda sou: 1,90m), magro, forte e estava namorando.
A convite da namorada, fui convidado à conhecer Campanha, uma cidadezinha de Minas Gerais onde morava sua família. Cidade pequena, parentes carinhosos e educados que, em poucos minutos me fizeram sentir como um membro da família (que logo eu seria, através de meu casamento).
Todo dia inventavam algo para fazermos para animar minha estadia, fora o tradicional carteado noturno, onde hoje acho que, devido eu ser visita, me deixaram ganhar sempre.
Numa manhã, durante o café, fui avisado que iríamos passar o dia numa estância hidromineral que havia numa cidade vizinha. Lá eu beberia água de diversos “sabores” (credo, tinha água até com gosto de ferrugem, que me fizeram beber dizendo ser bom prá saúde, enquanto riam da minha cara de nojo) e passar um dia delicioso com direito, inclusive a piquenique.
Cambuquira era o nome da estância hidromineral mineira. Dia de domingo, cidadezinha lotada, um lindo parque aquático e várias fontes com diversos “tipos” de água espalhadas. E lá fomos nós, canequinha à mão experimentar fonte por fonte.
No centro do parque aquático, que era cercado por uma bela floresta, havia uma espécie de estábulo, com vários cavalos dentro e outros saindo com pessoas montadas. Minha namorada, na época, se dizia apaixonada por cavalos e me convidou, juntamente com seus irmãos, para dar uma "voltinha" de cavalo.
Na hora nem lembrei de meu antigo “desentendimento” com referido animal. E mesmo que lembrasse, não poderia fazer feio recusando o convite de minha namorada. Se ela e seus irmãos, inclusive um de 8 anos de idade, iriam andar a cavalo, eu também iria. Ou teria que ir.
Após subir no animal e percebendo meu desconforto, o proprietário do “estábulo” deu uma pequena orientação sobre como virar a direita, esquerda e como parar o bicho. Já desconfiado (minha intuição não falha nunca), notei que não havia cinto de segurança, setas e nem air bag prá me proteger de uma eventual queda.
Saímos. A namorada e os cunhados na frente e eu lá atraz, tentando me familiarizar com o cavalo. Logo de início já não gostei. O animal trotava, com passadas altas e isso me fazia pular em cima da sela. Meu estômago subia até a garganta e voltava a cada passo do cavalo (e eram quatro por vez). Meu cérebro parecia que estava solto dentro da caixa craniana. Uma vontade de parar e ir a pé começou a tomar conta de meus pensamentos, agora, saltitantes.
Comentei isso com minha namorada e ela me disse que se eu fizesse o cavalo andar mais rápido, os “pulos” seriam menos sentido e eu teria mais “conforto”. Infeliz idéia. Ainda dentro da cidade, deslocávamos em direção á floresta, por onde eu já começava a vislumbrar uma trilha que certamente o cavalo já tinha visto e por onde estava acostumado a levar seus “passageiros”.
Aplicando uns golpes com o calcanhar na barriga do animal consegui que o mesmo andasse mais rápido. Os pulos foram suavizados. Meu cérebro estava menos solto e meu estômago já não chegava na garganta... aproximava-se do coração. Tinha razão minha namorada.
Mas como nada é perfeito, descobri que a sela era por demais lisa. Muito lisa. Meu bumbum (que não é pequeno) pendia “prum” lado, eu me ajeitava.. pendia pro outro. E lá ia eu, fazendo verdadeiro malabarismo em cima do bicho. Talvez quem visse, achasse que eu estava rebolando mais que o cavalo.
Comecei a suar frio. O medo de cair me dominava. Entramos pela trilha dentro floresta, que àquela altura já deixara de ser linda e começava a tomar ar de mal assombrada. Galhos batendo em minha cabeça e meu corpo, dificultavam ainda mais minha permanência em cima do animal. E o cavalo na dele, sem se importar. Aliás, acho até que ele fazia de propósito ao me levar de encontro aos galhos, na esperança de me fazer cair e dar muita risada.
Dentro da floresta, ao lado das trilhas, haviam vários garotos que, com certeza, eram contratados pelo dono do estábulo para dar uma “assessoria” aos cavaleiros que transitavam por ela. Uma espécie de "S.O.S." das rodovias privatizadas atuais. E um desses "infeliz" garoto, vendo a fila que se formava atrás de mim devido à velocidade reduzida com que eu conduzia o cavalo, resolveu descongestionar o trânsito, dando com um pedaço de madeira (vara) no lombo do animal, que acusou o golpe e partiu em disparada pelo estreito caminho.
Os garotos que estavam à frente (turma do SOS) vendo a minha alegria (eu gritava sim, mas não era de alegria), reforçaram as chibatadas no lombo do animal, fazendo-o aumentar a velocidade.
Pronto. Estava anunciado o desastre. Eu lá, tentando me equilibrar naquela sela escorregadia e desviando dos galhos (na realidade acho que acertei todos. Foi stryke geral) que apareciam na minha frente, vendo o chão cada vez mais próximo, não tive dúvidas: larguei as cordas que prendiam o animal e abracei o pescoço do cavalo.
Claro que, diante do medo da queda, o abraço que dei no pescoço do animal passou longe de ser carinhoso, beirando mais ao enforcamento. Assustado, o cavalo aumentou a velocidade, eu apertei mais forte, fechei os olhos e deixei meu alazão levar-me prá onde quisesse. Mais do que nunca, agora eu era um passageiro.
O tempo pareceu-me uma eternidade. Parecia fazer tanto tempo que eu estava ali, em cima do animal e abraçando-o fortemente, que achava que já estava chegando em Itapeva (distante mais de 700 kms.), quando, ao fundo, escutei risadas e comentários do tipo: “olha lá... olha o moço no cavalo”.
Abrindo medrosamente um dos olhos percebi que eu já tinha saído da floresta e estava em cima de um cavalo assustado (tanto quanto eu) no centro do parque, passando por entre pessoas e sendo levado de volta ao “estábulo”. Bendito cavalo ensinado. Parou ao chegar na porta do estabelecimento.
O dono veio “recepcionar” o animal e sem disfarçar um sorriso no canto da boca disse-me que eu estava em segurança e podia descer sem problemas. Levantei o corpo, procurei aquele treco onde encaixamos no pé, que não sei como havia escapado do meu, e com as pernas trêmulas desci com classe e elegância, parecendo um príncipe que voltava de uma caçada real. Pelo menos isso, né?
Já no chão, senti meu rosto ficar vermelho ao ver minha namorada e meus cunhados (inclusive aquele pestinha de 8 anos de idade que, pasmem, conseguia dominar o seu cavalo) chegando em cavalgada e rindo muito. Não sei como e nem quanto ultrapasseio-os, só sei que cheguei primeiro. Os parentes vieram ao meu encontro tentando disfarçar o riso e, num misto de solidariedade e vergonha me perguntaram se estava tudo bem, ao que respondi, pálido; “agora está!”.
Já em terra firme e após pagar pelo passeio (isso mesmo, ainda tive que pagar), fomos conhecer outras partes do parque, onde percebi que, além do silêncio da família que me acompanhava, evitando a fuga de uma indelicada gargalhada, eu tornei uma celebridade, sendo apontado pelas pessoas por onde eu passava.
Namorei por vários anos e casei. Nas férias e feriados nosso destino era sempre aquela tranqüila cidade de Minas Gerais. A família sempre me tratou com extrema educação e carinho e, tal qual como a primeira vez, sempre procuravam opções de lazer para combater a extrema calmaria que reinava na cidade. Curiosamente, o passeio à Cambuquira nunca mais se repetiu.
Tenho vontade de voltar lá. Talvez deva ter uma placa ou estátua em minha homenagem no parque aquático, ou então, aquele dia tenha sido decretado feriado municipal em alusão ao inesquecível dia que o parque todo gargalhou do "homem no cavalo", havendo desfiles pelas ruas da cidade com os cavaleiros "abraçando" seus animais.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
aaiiii...adoreiii a história..gargalheii aqui sozinha..do mesmo jeito qdo ouvi pessoalmente...imaginando a cena..eu naum consigo parar de rir...kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk..acho que até o cavalo se pudesse rir..ele iria rir..kkkkkkkkkkkkkkkk
ResponderExcluirvc e suas histórias...essa é a melhor..de todas que eu já ouvi!
bjus
O cavaloo rindo Netoo? Quem tá rindo aquii sou eeu.. e rindo mto. uashauhsuhsuhush. Suas histórias são MARA!
ResponderExcluirLegal a menção à minha Campanha. Legal também o carinho pelos familiares de sua ex-esposa. Aliás, uma parte desta família também integra a minha história. Principalmente nos idos de 70/80. Agora que "descobri" seu blog, faço questão de ler suas aventuras. Sou um apreciador de blogs neste estilo. Um abraço, amigo.
ResponderExcluir