sábado, 9 de maio de 2009

Lembranças... (10)

Continuação de Lembranças... (9):

Tocar na inauguração de uma danceteria em Ponta Grossa? Nossa! Seria o máximo.

Na hora nem perguntei se iria ganhar prá isso. O prazer de tocar já era meu cachê (na verdade, nunca ganhei nada prá tocar).

Liguei pro Norberto e pro Fernando. Um morava em Santos e outro em Sorocaba. Já tínhamos uma banda com repertório pronto. Nem precisava ensaiar. Era chegar e tocar.

Não sei porque, mas eles não poderiam vir. Talvez a distância ou outros compromissos assumidos.

E agora? A exigência era clara: tinha que ser banda. Comentei com meus amigos e eles sugeriram montar uma. Falei que era difícil, pois faltavam poucos dias e não conhecia ninguém que fosse músico.

O Fábio falou que tocava piano, logo poderia tocar teclado. O Ronald (apelido “Pitecus”, por causa do cabelo arrepiado) disse que tinha um contra-baixo e sabia tocar. Meus olhos brilharam, afinal eu tocaria guitarra e baterista já tínhamos (o pobre coitado que sempre me seguia). Pronto! Problema resolvido!

Ou não...

Marcamos nosso primeiro ensaio num barracão nos fundos da mineradora de talco da família do Fábio. Mineradora + talco = poeira sem fim. Era tanto pó de talco que se a gente tomasse água e cuspisse, sairia um tijolo da boca.

Mostrei as músicas prá eles. Dez ou doze, não me recordo. Todos conheciam. Até o baterista, pasmem! Acho que ele resolveu se atualizar um pouco ou aprendeu a mentir.

Primeira música. Desastre total. O Ronald parecia que brigava com o baixo. Acho que nunca foram apresentados um pro outro. O Fábio, coitado, ficava parado, olhando pro teclado. Parecia ter medo de encostar nele.

O que parecia solução, tornou-se problema. Tive que ajudar o Fábio a “tirar’ as musicas no teclado. Pro Ronald, eu "desenhei" a seqüência de acordes num papel. E assim se passaram os dias, se aproximando o da grande inauguração.

E a banda não tava boa. Tava capenga. Desencontrada. O Fábio até que pegou legal o teclado. Mas o Ronald e seu baixo... Meu Deus. Parecia que ao invés de melhorar, ele piorava a cada ensaio.

Dentre os inúmeros defeitos que tenho, um deles é não saber magoar meus amigos. Eu não poderia simplesmente tirar o Ronald da banda. Ainda mais porque ele era o que mais fazia propaganda na faculdade, convidava as pessoas prá irem nos ver. Ele deixava claro nos convites: "eu vou tocar baixo". Como tirá-lo agora?

Insisti com ele. Com receio, mas insisti. Chegou o dia. As 11 horas estavamos na porta da danceteria. “Espalhafato” era o nome (soube que ela pegou fogo alguns meses depois da inauguração). Filas enormes, carros, pessoas, barulho, agitação total.

Tremi. Gelei. Achei que iria poucas pessoas, principalmente meus amigos de faculdade. Achei também que a danceteria seria pequena, simples. Que nada! Era uma danceteria monstro. Enorme. Cheia de ambientes. Meu Deus!

Entramos e fomos arrumar os instrumentos no palco. E a casa enchendo. O Ronald, toda hora ia prá beirada do palco conversar com alguma conhecida. Ele tava super calmo. Calmo até demais. Isso me preocupava.

Casa cheia. Fomos pro camarim. Repassei as músicas com o pessoal, lembrei detalhes, dei dicas, expliquei, suei, tremi e fui ao banheiro de 5 em 5 minutos (acho que meu sistema nervoso central deve ser ligado diretamente na bexiga e nos rins).

Subimos no palco. Primeira música: “Sim, São Paulo”. Iniciava num dedilhado de guitarra e enquanto eu cantava. Linda música. Na segunda parte, a banda toda entrava e a música encorpava, tomava cara de rock. Ótima prá iniciar um show.

Dedilhei, cantei e o povo olhando. Minha banda esperando prá tocar. Pronto! Todo mundo comigo. Entrou a bateria quebrando tudo. O cara era muito bom. O Fábio, no teclado, fez a música ganhar corpo. E o contra-baixo... Ah! O contra-baixo...

Jesus apaga a luz (e tira o Ronald daqui). Ele começou a pular, dançar, mexer a cabeça, fazer caretas no melhor estilo Kiss. E se esqueceu de tocar! E quando encontrava as cordas do baixo, o desastre piorava.


Na hora me lembrei do personagem de desenhos animados, Pepe Legal, que era um super herói que atingia os bandidos com seu violão enquanto dizia: “cabooong!”. Ahhh, que vontade que deu...

Foi a música inteira e meus ouvidos doendo com o desencontro total do contra-baixo. O povo nem percebeu, pois estava todo mundo dançava, animados com a performance do Ronald, que parecia estar empolgando a galera mais que a própria música.

Terminada a primeira música, olhei pro Fabio e pro baterista (ainda não consegui lembrar o nome dele) e eles estavam brancos e fazendo sinal com a cabeça em direção ao Ronald. Entendi que eles perceberam o mesmo que eu.

A mesa de som era do lado do palco. Fui até o operador de som e mandei desligar o contra-baixo. “Você tá louco? Tocar sem baixo?”, ele me disse. Eu respondi: “Desligue já”.

Voltei pro Fabio e pro baterista e avisei que iríamos tocar sem baixo e eles deviam prestar atenção em minha perna direita, pois era como eu faria a marcação do tempo das músicas. O Ronald? Ah é... ele tava na beira do palco dando tchauzinhos e mandando beijinhos, enquanto esperava a próxima música.

A segunda música era “Até Quando Esperar”, do Plebe Rude. E iniciava com um solo de contra-baixo. Olhei prá banda. Contei um... dois... três... e... lá foi o Ronald fazer o solo inicial da musica.

Ele fazia careta enquanto solava. Mexia os ombros. Ficava na ponta do pé e arcava o corpo prá trás. Andava pelo palco.

Vocês devem estar perguntando: “Mas o baixo não estava desligado?”.


Estava. Eu que fiz o solo na guitarra.

E acreditem. Ele não percebeu. Passou o show inteiro pulando igual perereca no cio pelo palco, andando, correndo, subindo em caixas de som, batendo palmas, fazendo sinais (principalmente aqueles de rock´n roll). E levantando o publico que não parava de vibrar (com ele).

Até hoje ele não sabe que naquela noite, como baixista, ele se saiu um ótimo dançarino.


Nem ele e nem o público, pois durante semanas ele foi o mais elogiado e cumprimentado por quem esteve na inauguração.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. AOMENOS ELE SAIU COMO O BOBO DA CORTE OU ANIMADOR DE FESTA QUE ATÉ AJUDOU VCS...
    TADINHO FIQUEI COM VERGOLNHA ALHEIA POR ELE
    DEVE TER SIDO UM MICO NÉ... IMAGINA SÓ
    MAS EU RI DO RONALDO HEIM

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