quarta-feira, 25 de julho de 2012

Pensando (39)...
ERA UMA VEZ...

... num reino muito distante, uma jovem plebéia que tinha um “amigo” ferreiro. Viviam felizes, passeavam pelos campos, faziam picnics e sonhavam com o futuro.

Ele a conheceu muito nova e inocente, e tratou de aproximar-se e orientá-la em sua vida, preocupando-se mais com ela do que consigo mesmo, de forma que muitas vezes, deixava seus afazeres para auxiliá-la nas tarefas mais simples, ou para levá-la passear, ou para explicar sobre o céu, a terra e o ar, contando histórias engraçadas ou tristes de sua vida. Realmente eram um casal muito unido e que estavam sempre felizes.

Um dia, enquanto dava comida aos animais, uma comitiva do Castelo passou pela sua casa e, ao vê-la, uma voz que veio de dentro da carruagem pomposa, deu ordem de parada e dela desceu um Barão, que passou a interrogá-la sobre onde morava, quem eram seus pais, o que fazia e como era sua vida.

A plebéia a tudo respondeu e foi convidada a conhecer o Castelo. Educadamente, disse que não poderia ir sem o seu “amigo” ferreiro, o qual foi prontamente convidado a acompanhá-los.

No Castelo, foi apresentada pelo Barão à Duquesa e ao Conde, sendo muito elogiada pela sua beleza e simplicidade. Eles cercaram-na, de tal forma, que o ferreiro viu-se expurgado de sua companhia, mas podia notar pelos movimentos e risadas, que sua “amiga” plebéia estava extasiada e encantada com seus novos amigos.

Seus olhinhos brilhavam com as histórias da realeza, imaginando-se uma delas, com seus lindos vestidos rodados e suas perucas enormes.

Claro, seus novos amigos mostravam-lhe um mundo novo, muito diferente daquele mundinho que vivia até então, com seu “amigo” ferreiro.

Percebendo que cada vez que aproximava-se do grupo, o assunto mudava e os risos diminuíam, o ferreiro postou-se ao lado e, pouco a pouco, foi se afastando.

Ciente de que não deveria abandoná-la à própria sorte, dirigiu-se à porta do Castelo, tomou um cavalo e partiu em direção da Vila que morava, sempre acreditando que a jovem plebéia saberia se defender das investidas da nobreza que a “atacava”.

No dia seguinte, quando indagado por ela do porquê retirou-se na surdina do Castelo, ele disfarçou numa desculpa tola e seguiu aos seus afazeres. Os dias passaram e a vida parecia ter voltado ao normal entre eles.

Até que, surge no horizonte, um cavaleiro real que dirigiu-se à casa da plebéia e deixa uma correspondência. Nela, um convite para “eles” irem ao baile real.

Ela o convidou e, no dia do evento, seguiram rumo ao Castelo. Novamente a cena repetiu-se, sendo a plebéia cercada pela Duquesa, Conde e Barão, ficando o ferreiro de lado.

Notava-se, claramente, que a amizade entre eles aumentava, enquanto o ferreiro era deixado de lado, fazendo com que, invariavelmente, saísse quieta e disfarçadamente em direção à Vila.

Novos convites chegaram. Quase todos aceitos. No Castelo, além da Nobreza citada, outras e outros jovens da Realeza aproximavam-se dela, conversando alegre e efusivamente.

Notando que a resistência da plebéia, às vezes, aumentava em aceitar os convites, os nobres tentaram aproximar-se do ferreiro. Liderados pelo Barão, tentaram persuadí-lo a participar mais da Nobreza, pois sabiam que sua presença era garantia da participação da jovem plebéia.

Experiente, o ferreiro não se deixou levar pela artimanha do grupo e mesmo recebendo convites individuais, com o aviso claro de que a jovem plebéia não estaria presente, relutou em aceitar alguns, aceitando outros apenas para confirmar algo que já estava imaginando.

Decidiu que não iria e nem deveria contar o que estava vendo, presenciando e sabendo sobre a Nobreza. Decidiu que a jovem plebéia é que deveria ver, notar e saber, por si só. Nem que isso custasse muito a ele. E custou!

Com o tempo passando, começou a notar que não só o cavaleiro real trazia novos convites, como muitas das vezes, uma comitiva da realeza vinha até a casa da plebéia para visitá-la. Tais visitas tornaram-se constantes, como se abrissem um canal exclusivo de comunicação entre eles.

A tudo o ferreiro assistia e decidiu que era hora de afastar-se de tudo, de todos e, principalmente, da jovem plebéia. Ela tinha encontrado novos amigos, estava extasiada pela amizade que despontava em sua frente e... ele não tinha o direito de atrapalhar.

Acreditava, piamente, que os ensinamentos que ele havia passado a ela, viessem à tona agora, e ela percebesse que estava diante de uma decisão, uma encruzilhada: ou seguia à nobreza ou seguia sua vidinha na Vila.

Ele se afastou. Passou a evitá-la. Trancou-se em sua oficina e sua cabana. Não respondia mais aos chamados da jovem plebéia. Deixou-a livre para pensar e decidir.

Notou, também, que a Nobreza passou a ignorá-lo e, por outros moradores da Vila, chegou até ele comentários maldosos e fantasiosos vindo do Castelo. Sabia que esses comentários estavam chegando, também, no ouvido da jovem plebéia. Mas ele nada fez. Ela o conhecia há anos e sabia da sua índole e da sua sinceridade.

Enquanto a jovem plebéia freqüentava mais e mais os bailes do Castelo, uma jovem moradora da Vila, que um dia trabalhou em outro Castelo, passou a aproximar-se dele.

Vendo o ferreiro triste, tentou reanimá-lo, sem nunca esconder-lhe a verdade do que passava dentro dos portões reais. Da verdade nua e crua que acontecia lá dentro. Da índole de seus freqüentadores. Das artimanhas utilizadas. E dos interesses em destruir tudo e todos os que os desagradassem.

Sabia a moradora da Vila que a vida vazia e triste, apesar da riqueza que ostentavam, era apenas fachada. E com suas verdades, carinho e atenção e, principalmente, ante o vazio provocado pela ausência da jovem plebéia, aproximou-se mais e mais do ferreiro que passou a vê-la com outros olhos.

Tempos depois, o ferreiro soube que agiu certo ao deixar a jovem plebéia livre, pois diz o ditado que devemos deixar livres o que amamos, pois se voltarem é porque conquistamos, mas se não voltarem, é porque nunca possuímos.

Ele não sabe mais por onde anda sua antiga “amiga” ou o que ela tem feito. Nem procura saber. Pois está feliz ao lado da moradora. Ele apenas tem certeza de que, muito embora tenha dedicado anos e anos de sua vida tentando ensinar a plebéia sobre a vida, em pouquíssimo tempo foi abandonado por uma oportunidade de vida diferente da que oferecia-lhe.

Não, ele não guarda mágoas. Nem da plebéia e nem da nobreza, que um dia soube jogar brilhantemente com ele e ela, com a amizade que eles tinham e, principalmente, com a falta de uma promessa de um futuro promissor a ser ofertado.

Ele sabe que um dia a ex-plebéia ainda vai passear na Vila e eles acabarão se encontrando. E ela terá a respostas para suas saídas discretas do Castelo ou mesmo para seu desaparecimento repentino.

E mais: saberá que toda vez que saia à porta do Castelo, tinha um cavalo colocado estrategicamente na porta, por ordem do Barão, para que ele pudesse voltar à Vila.

Nada na vida acontece por acaso. Tudo é causa e conseqüência. Tudo que é plantado é colhido. E a realeza soube plantar direitinho as sementes da discórdia entre eles.

Ela está feliz? Ele não sabe. Mas o vazio que ela deixou foi plenamente ocupado pela moradora da Vila que o alegrou nos momentos mais tristes e deu-lhe a mão para levantar e caminhar ao lado dela, a quem ele é eternamente grato.

Se vai ser prá sempre? Ele não sabe, pois cansou de acreditar em juras eternas da boca de quem acreditava plenamente, ainda mais depois de descobrir que tais juras morreram, surpreendentemente, em poucos dias.

Hoje ele vive o dia a dia, dia a dia esquecendo do passado recente.

FIM!




































































Nenhum comentário:

Postar um comentário