terça-feira, 28 de abril de 2009
Lembranças... (8)
Ainda na época da faculdade de Direito, tínhamos aulas sábado de manhã. Tínhamos um grande amigo nosso que morava em Itararé e estudava na mesma sala da gente. Seu nome: Marcão Quati.
Aos sábados, quase sempre ele ia de carro prá FKB. E como Itapeva era caminho de volta prá Itararé, pegávamos uma carona em seu luxuoso carro.
Numa dessas caronas, viemos em quatro pessoas. O Marcão dirigindo, eu e mais dois colegas de sala que também moravam em Itapeva.
Quatro homens juntos não dava outra, senão um concurso de vantagens. Um dos meus amigos é o que eu apresentei abaixo: espertalhão, malandro e não gostava de ficar por baixo em suas histórias, sempre aumentando os feitos de maneira inacreditável.
Durante a viagem, um a um ia contando uma história. Todos riam. Alguns duvidavam. Mas o campeão era sempre esse meu amigo. Ele contou apenas três histórias, que bastaram prá tirar o Marcão do sério.
A primeira história foi quando falávamos de consumo de combustível dos veículos. O Marcão disse que o carro, importado e zero, fazia 17 quilômetros por litro. Eu que não tinha carro e meu amigo ao meu lado, ficamos quieto. O espertalhão disse que o carro do dele tinha saído da oficina de um amigo, mestre em mecânica, e que agora fazia mais de 30 quilômetros por litro. E o motor ainda era turbo.
O Marcão dirigindo, só olhou pro banco ao lado, do passageiro, onde nosso amigo estava e balançou a cabeça negativamente como que reprovando tal mentira. No banco de trás, eu e meu amigo rimos quase em silêncio.
Combinei com ele de darmos "corda" ao nosso amigo da frente, contando algumas histórias "forçadas", prá ele embarcar. E deu certo. Ele se animou e contou que o aparelho de video dele, na opção EP, gravava 12 horas de programação da TV.
O Marcão falou que, mesmo na posição EP, o máximo de gravação seria 4 horas. Nosso amigo, insistiu, dizendo que o aparelho tinha vindo dos Estados Unidos, que ainda não tinha no Brasil, era modelo novo, etc e tal.
Resignado, o Marcão tentou explicar que o aparelho podia ser novo, mas as fitas só permitiam 4 horas de gravação, independente do aparelho. Nosso amigo insistiu na veracidade da história e se ofereceu prá provar o que falava. O Marcão novamente balançou a cabeça e suspirou.
No banco de trás, eu e meu amigo ríamos horrores, já que nosso plano estava dando certo.
Novo assunto: acidentes de carro.
Meu amigo no banco de trás contou que uma vez capotou o carro numa estrada mas todos sairam ilesos. O carro deu perda total.
Eu, que nunca bati carro na vida, inventei uma historia semelhante, carregando nos detalhes e na desgraça. Mas todos saíram ilesos, graças a Deus.
No banco da frente, esperando a sua vez, nosso amigo bufava de pressa prá contar a dele. E chegou sua vez:
- Uma vez eu tava dirigindo meu carro e numa curva "si" perdi, capotei e fui jogado prá fora. Assim que cai no chão, balancei a cabeça, virei e vi o carro capotando. Corri até ele, estiquei o braço e consegui tirar o meu irmão que tava no banco da frente. O carro continuou capotando e corri de novo e tirei a minha cunhada que estava no banco de trás.
Parou e fez um breve comentário: "Sorte que o carro era quatro portas e os vidros estavam abertos, senão...".
O Marcão já se contorcia ao volante. E ele continuou:
- Depois de tirar minha cunhada, corri atrás do carro e enquanto ele capotava, tirei a minha namorada pelo outro lado. Dae vimos o carro capotar pela ribanceira.
Enquanto ele terminava a história dizendo que ninguém havia se ferido e nós dois no banco de tras gargalhávamos, o Marcão parou o carro e ordenou: "Desce! Já! Anda... desce do carro. Não aguento mais".
Minha barriga doia e meu colega de banco chorava de escorrer lágrimas. Nosso amigo da frente ria, achando que era brincadeira, e o Marcão insistia: "Vamos, to mandando. Desce!"
Achando tratar-se de brincadeira, ele desceu do carro e o carro saiu cantando os pneus enquanto olhávamos pelo vidro trazeiro.
Nervoso, Marcão não parava de repetir: "Até Itapeva eu não aguento. Ele que agradeça de eu ter parado o carro, porque quase joguei ele fora."
Lembranças... (7)
Minha segunda Faculdade foi de Direito, que cursei na FKB, em Itapetininga-SP, que dista 120 kms de Itapeva. Viajávamos toda noite em ônibus fretado com alunos itapevenses que faziam vários cursos naquela instituição.
Na minha sala, érmaos em cinco de nossa cidade. Por sermos conterrâneos, sempre estávamos juntos nas salas de aulas e nos intervalos. A sala comportava mais de 80 alunos, de todas as cidades da região.
Tinha um amigo de Itapeva, em especial, que adorávamos sacanear. Ele era metido a esperto, malandro, sempre sentava ao lado dos melhores alunos nas provas, quase nunca estudava e se gabava de estar "acompanhando" a gente com boas notas. Mas era fraquinho, coitado.
Um dia, numa aula de Direito Internacional, em meados de outubro, o Professor que sempre gostava de comentar atualidades, perguntou prá sala o que se comemorava naquele dia.
Na época eu era diretor-proprietário de um jornal aqui em Itapeva e, não por força da profissão mas por gostar, sempre lia todos os jornais diários. Além disso, eu era um trintão numa sala cuja esmagadora maioria era de jovens recém-saídos da adolescência.
Logo, eu seria a pessoa mais indicada a responder a pergunta do Professor.
A sala silenciou. O Professor perguntou novamente. Nada, ninguém. O Professor aumentou o desafio ofertando aumentar em 1 ponto na nota para quem acertasse.
Eu cochichei pro meu colega espertalhão que estava sentado do meu lado (esse mesmo que comentei acima), que era a data da fundação da ONU.
Ele disse: "Então fale", e eu respondi com ar sério: "Eu não, já fechei nota com ele, não preciso. Fale você que tá precisando". E completei: "E ela foi fundada em 1920".
Novamente o Professor perguntou e eu cutuquei meu colega prá que aproveitasse prá ganhar o ponto antes que alguém falasse.
Ele levantou a mão e disse: "Eu sei, Professor!".
A sala inteira, espantada, virou-se para ele.
- Pois não, Doutor. Diga-me o que se comemora na data de hoje.
Os Professores tinham o hábito de chamar os alunos de Doutores em sala de aula. Tal elogio somado ao espanto da sala, fizeram meu amigo levantar-se da cadeira, estufar o peito e bradar, cheio de si, em alto e bom tom:
- Hoje, Doutor Professor, comemora-se o Dia da ONU, cuja fundação deu-se em 1920.
O silêncio aumentou. Podia-se ouvir os pensamentos dos colegas indagando: "Mas justo ele, como ele sabe disso?".
Eu, ao lado, esforçava-me para segurar um sorriso que teimava em escapar pelo canto da boca. Aguentei até o Professor responder, no mesmo tom, um robusto "NÃO, Doutor", que ecoou pela sala.
Dai não aguentei mais segurar e soltei uma gargalhada, que foi acompanhada pelos colegas da sala juntamente com uma sonora vaia.
Agora era ele que fazia uma cara de espanto, ainda em pé ao meu lado e olhando prá mim sem entender o que estava acontecendo. Depois disso, nem nas minhas colas ele acreditou mais.
Na minha sala, érmaos em cinco de nossa cidade. Por sermos conterrâneos, sempre estávamos juntos nas salas de aulas e nos intervalos. A sala comportava mais de 80 alunos, de todas as cidades da região.
Tinha um amigo de Itapeva, em especial, que adorávamos sacanear. Ele era metido a esperto, malandro, sempre sentava ao lado dos melhores alunos nas provas, quase nunca estudava e se gabava de estar "acompanhando" a gente com boas notas. Mas era fraquinho, coitado.
Um dia, numa aula de Direito Internacional, em meados de outubro, o Professor que sempre gostava de comentar atualidades, perguntou prá sala o que se comemorava naquele dia.
Na época eu era diretor-proprietário de um jornal aqui em Itapeva e, não por força da profissão mas por gostar, sempre lia todos os jornais diários. Além disso, eu era um trintão numa sala cuja esmagadora maioria era de jovens recém-saídos da adolescência.
Logo, eu seria a pessoa mais indicada a responder a pergunta do Professor.
A sala silenciou. O Professor perguntou novamente. Nada, ninguém. O Professor aumentou o desafio ofertando aumentar em 1 ponto na nota para quem acertasse.
Eu cochichei pro meu colega espertalhão que estava sentado do meu lado (esse mesmo que comentei acima), que era a data da fundação da ONU.
Ele disse: "Então fale", e eu respondi com ar sério: "Eu não, já fechei nota com ele, não preciso. Fale você que tá precisando". E completei: "E ela foi fundada em 1920".
Novamente o Professor perguntou e eu cutuquei meu colega prá que aproveitasse prá ganhar o ponto antes que alguém falasse.
Ele levantou a mão e disse: "Eu sei, Professor!".
A sala inteira, espantada, virou-se para ele.
- Pois não, Doutor. Diga-me o que se comemora na data de hoje.
Os Professores tinham o hábito de chamar os alunos de Doutores em sala de aula. Tal elogio somado ao espanto da sala, fizeram meu amigo levantar-se da cadeira, estufar o peito e bradar, cheio de si, em alto e bom tom:
- Hoje, Doutor Professor, comemora-se o Dia da ONU, cuja fundação deu-se em 1920.
O silêncio aumentou. Podia-se ouvir os pensamentos dos colegas indagando: "Mas justo ele, como ele sabe disso?".
Eu, ao lado, esforçava-me para segurar um sorriso que teimava em escapar pelo canto da boca. Aguentei até o Professor responder, no mesmo tom, um robusto "NÃO, Doutor", que ecoou pela sala.
Dai não aguentei mais segurar e soltei uma gargalhada, que foi acompanhada pelos colegas da sala juntamente com uma sonora vaia.
Agora era ele que fazia uma cara de espanto, ainda em pé ao meu lado e olhando prá mim sem entender o que estava acontecendo. Depois disso, nem nas minhas colas ele acreditou mais.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Lembranças... (6)
Justiça seja feita!
Agora que me empolguei com minhas histórias e até esqueci de postar outros assuntos, quero deixar registrado aqui um fato que marcou minha vida e me trouxe (a todos da minha turma) um grande amigo.
Antes seguirmos prá Santos (tópico abaixo), reunimos a galera prá planejar essa viagem. Nessa reunião, meu primo que hoje mora no exterior, disse que tinha extendido o convite à um amigo dele, que eu particularmente, não conhecia.
Primeiro todos ficaram em silêncio. Depois, alguns começaram a dizer que conhecia esse amigo do meu primo e que ele não seria uma pessoa agradável, pois era chato. Meu primo ficou quieto.
Dias depois encontrei meu primo e ele disse que não iria mais. Na hora percebi que era por causa do seu amigo. Reuni a galera novamente e decidimos dar uma chance ao amigo de meu primo, pois fazíamos questão de sua presença na viagem.
Viajamos com ressalvas, meio cabreiros, afinal, os comentários não eram muito favoráveis à ele. Durante a viagem, ele foi num carro e eu dirigindo o outro. Numa das paradas, um dos ocupantes do carro dele veio me contar que "o cara lá até que é legal" e que estava se divertindo muito com ele.
Na praia, ele se enturmou rapidinho. No mesmo dia da chegada já estava tão entrosado conosco que nem lembrávamos mais dos comentários feitos na reunião dias antes.
Ficamos uma semana na praia. Isso foi em 2000. Retornamos de lá e até hoje somos amigos. Alguns que viajaram conosco estão casados, namorando ou morando fora, o que impede um contato maior. Mas nem por isso deixaram de chamá-lo de "amigo".
Hoje eu o tenho como um irmão. Sempre que ele vem à Itapeva me liga e vamos prá balada. Me divirto com suas histórias e sinto sua ausência quando saio sem ele.
Curioso como a vida nos prega peças. E se meu primo, que hoje mora nos Estado Unidos, tivesse desfeito o convite ou simplesmente desistido de viajar? Eu não teria esse primo por perto e nem tampouco ganharia um irmão, que certamente será pro resto da vida.
Paulinho, essa história é minha forma de pedir-lhe desculpas publicamente por ter, um dia, duvidado de você sem ao menos te conhecer.
Felicidades, meu irmãozinho!
Agora que me empolguei com minhas histórias e até esqueci de postar outros assuntos, quero deixar registrado aqui um fato que marcou minha vida e me trouxe (a todos da minha turma) um grande amigo.
Antes seguirmos prá Santos (tópico abaixo), reunimos a galera prá planejar essa viagem. Nessa reunião, meu primo que hoje mora no exterior, disse que tinha extendido o convite à um amigo dele, que eu particularmente, não conhecia.
Primeiro todos ficaram em silêncio. Depois, alguns começaram a dizer que conhecia esse amigo do meu primo e que ele não seria uma pessoa agradável, pois era chato. Meu primo ficou quieto.
Dias depois encontrei meu primo e ele disse que não iria mais. Na hora percebi que era por causa do seu amigo. Reuni a galera novamente e decidimos dar uma chance ao amigo de meu primo, pois fazíamos questão de sua presença na viagem.
Viajamos com ressalvas, meio cabreiros, afinal, os comentários não eram muito favoráveis à ele. Durante a viagem, ele foi num carro e eu dirigindo o outro. Numa das paradas, um dos ocupantes do carro dele veio me contar que "o cara lá até que é legal" e que estava se divertindo muito com ele.
Na praia, ele se enturmou rapidinho. No mesmo dia da chegada já estava tão entrosado conosco que nem lembrávamos mais dos comentários feitos na reunião dias antes.
Ficamos uma semana na praia. Isso foi em 2000. Retornamos de lá e até hoje somos amigos. Alguns que viajaram conosco estão casados, namorando ou morando fora, o que impede um contato maior. Mas nem por isso deixaram de chamá-lo de "amigo".
Hoje eu o tenho como um irmão. Sempre que ele vem à Itapeva me liga e vamos prá balada. Me divirto com suas histórias e sinto sua ausência quando saio sem ele.
Curioso como a vida nos prega peças. E se meu primo, que hoje mora nos Estado Unidos, tivesse desfeito o convite ou simplesmente desistido de viajar? Eu não teria esse primo por perto e nem tampouco ganharia um irmão, que certamente será pro resto da vida.
Paulinho, essa história é minha forma de pedir-lhe desculpas publicamente por ter, um dia, duvidado de você sem ao menos te conhecer.
Felicidades, meu irmãozinho!
Lembranças... (5)
Certa feita (sempre quis começar um texto assim), viajamos em uma turma prá Santos, litoral de São Paulo. Fomos em dois carros. Dez pessoas: três meninas e o resto um bando de rapazes à procura de muita azaração na praia.
Ficamos em Santos mas íamos toda manhã pro Guarujá, nadar e pagar de "riquinhos". Passávamos o dia lá. As poucas meninas que tivemos coragem de aproximar e conversar (caipira na praia é dureza), quando perguntavam onde estávamos ficando, recebiam como resposta "naquele prédio", com o dedo sempre apontando a esmo para o primeiro prédio que a vista alcançava.
Das cantadas na praia nada rendeu. Só vermelhidão e muita areia dentro da sunga (como entra areia na sunga, meu Deus... deviam asfaltar as praias...).
Durante a semana que estivemos em Santos, a proprietária do apartamento (talvez com pena de nossas infrutíferas cantadas), nos avisou que no sábado iria nos levar à uma danceteria no Guaruja, chamada Avelino´s, onde as noites "ferviam".
Passamos a semana ansiosos pela balada do sábado. Não chegava nunca. E quando chegou, parecia que o relógio não andava. Nem à praia fomos. Ficamos no apartamento, contando os minutos.
A noite chegou. Fomos à danceteria. Nem vou comentar aqui a aventura que foi chegar lá, pois era longe prá burro.
Dentro do Avelino´s, uma loucura. Mais de 3 mil pessoas (isso mesmo) se amontoando pelos vários ambientes da casa. Estávamos bem apresentados até. Roupinhas novas, sorriso no rosto. Impossível não beijar ninguem em meio a tanta gente solteira.
Hora passando e nada. Nem um beijo. Menos ainda: nem um "oi" respondido ante algumas palavras faladas ao cruzar de olhares. Estávamos derrotados. O jeito era curtir a balada e apreciar as belas garotas que desfilavam pelos ambientes com suas roupinhas provocantes de verão.
Sem perceber, ficamos em fila em uma espécie de corredor escuro, que ligava um dos ambientes a um dos bares. Um ao lado do outro. As meninas passavam pela gente e a olhávamos dos pés à cabeça. E seguia olhando até vir outra. Virou festa aquilo.
À nossa fila, juntou-se mais uns três ou quatro carinhas, tão perdidos e derrotados quanto nós. Entre nós e eles estava o mais "atirado" da nossa turma. Era o que mais tentava puxar papo com as meninas. Mas elas nem bola davam.
De repente, eis que surge à nossa frente, próximo do primeiro da fila (que era eu) uma morena linda, cabelos longos, pretos, olhos amendoados, sorriso perfeito e dentes brancos. O corpo entao... melhor nem comentar. Frisson na fila. Todos falando "oi" prá ela. Parecia jogral de escola, onde um após outro, cada aluno ia declamando um pequeno texto.
Nosso amigo, não se contentando com seu "oi" não respondido, esperou ela passar e afagou-lhe os cabelos. Sim, apenas passou-lhe a mão em seus cabelos.
Espanto geral: a menina parou, virou e sem pestanejar desferiu um tapa que mesmo com o som alto do ambiente eu consegui ouvir lá no início da fila. Uma a uma as cabecinhas foram curvando para tentar visualizar o atingido pelo bofetão.
De repente, fomos encobertos pela silhueta de nosso amigo xavecador (autor do afago) vindo em nossa direção, rindo e dizendo: "Caramba, que tapão ela deu no carinha".
E lá tava o pobre rapaz, com a mão no rosto, olhar assustado de quem não tinha entendido nada e cujo único pecado foi estar na hora errada e no lugar errado, justo ao lado do xavequeiro.
Ficamos em Santos mas íamos toda manhã pro Guarujá, nadar e pagar de "riquinhos". Passávamos o dia lá. As poucas meninas que tivemos coragem de aproximar e conversar (caipira na praia é dureza), quando perguntavam onde estávamos ficando, recebiam como resposta "naquele prédio", com o dedo sempre apontando a esmo para o primeiro prédio que a vista alcançava.
Das cantadas na praia nada rendeu. Só vermelhidão e muita areia dentro da sunga (como entra areia na sunga, meu Deus... deviam asfaltar as praias...).
Durante a semana que estivemos em Santos, a proprietária do apartamento (talvez com pena de nossas infrutíferas cantadas), nos avisou que no sábado iria nos levar à uma danceteria no Guaruja, chamada Avelino´s, onde as noites "ferviam".
Passamos a semana ansiosos pela balada do sábado. Não chegava nunca. E quando chegou, parecia que o relógio não andava. Nem à praia fomos. Ficamos no apartamento, contando os minutos.
A noite chegou. Fomos à danceteria. Nem vou comentar aqui a aventura que foi chegar lá, pois era longe prá burro.
Dentro do Avelino´s, uma loucura. Mais de 3 mil pessoas (isso mesmo) se amontoando pelos vários ambientes da casa. Estávamos bem apresentados até. Roupinhas novas, sorriso no rosto. Impossível não beijar ninguem em meio a tanta gente solteira.
Hora passando e nada. Nem um beijo. Menos ainda: nem um "oi" respondido ante algumas palavras faladas ao cruzar de olhares. Estávamos derrotados. O jeito era curtir a balada e apreciar as belas garotas que desfilavam pelos ambientes com suas roupinhas provocantes de verão.
Sem perceber, ficamos em fila em uma espécie de corredor escuro, que ligava um dos ambientes a um dos bares. Um ao lado do outro. As meninas passavam pela gente e a olhávamos dos pés à cabeça. E seguia olhando até vir outra. Virou festa aquilo.
À nossa fila, juntou-se mais uns três ou quatro carinhas, tão perdidos e derrotados quanto nós. Entre nós e eles estava o mais "atirado" da nossa turma. Era o que mais tentava puxar papo com as meninas. Mas elas nem bola davam.
De repente, eis que surge à nossa frente, próximo do primeiro da fila (que era eu) uma morena linda, cabelos longos, pretos, olhos amendoados, sorriso perfeito e dentes brancos. O corpo entao... melhor nem comentar. Frisson na fila. Todos falando "oi" prá ela. Parecia jogral de escola, onde um após outro, cada aluno ia declamando um pequeno texto.
Nosso amigo, não se contentando com seu "oi" não respondido, esperou ela passar e afagou-lhe os cabelos. Sim, apenas passou-lhe a mão em seus cabelos.
Espanto geral: a menina parou, virou e sem pestanejar desferiu um tapa que mesmo com o som alto do ambiente eu consegui ouvir lá no início da fila. Uma a uma as cabecinhas foram curvando para tentar visualizar o atingido pelo bofetão.
De repente, fomos encobertos pela silhueta de nosso amigo xavecador (autor do afago) vindo em nossa direção, rindo e dizendo: "Caramba, que tapão ela deu no carinha".
E lá tava o pobre rapaz, com a mão no rosto, olhar assustado de quem não tinha entendido nada e cujo único pecado foi estar na hora errada e no lugar errado, justo ao lado do xavequeiro.
Lembranças... (5)
Hoje, conversando com um amigo meu, ele me contou a seguinte história:
Sua esposa sempre o cobra prá acompanhá-la à missa dominical, ao que ele reluta com a desculpa de todos os católicos não-praticantes de que não precisa ir na missa para acreditar em Deus, etc., etc. e etc.
Domingo último, não sei através de quais métodos de convencimento, sua esposa o "carregou" até a Igreja. No sermão, o padre usou e abusou do assunto de que católico que é católico tem sim que comparecer à missa e participar dela, não bastando apenas se dizer católico.
Pronto. Estava dada a deixa pro meu amigo levar vários cutucões da esposa durante o sermão. Parecia até que ela tinha ligado pro padre e alertado sobre a sua presença naquela tarde.
Enquanto dirigia-se para casa, a esposa falante não tocava em outro assunto que não fosse o que o padre falou, dando-lhe razão. Meu amigo, depois de tão direto sermão, resignou-se ao silêncio.
Já em casa, a esposa ligou pros filhos que residem em outra cidade onde estudam. Após a indagação de praxe (estão se alimentando? Tem comida em casa? Tem ido às aula?), aproveitou prá contar ao primogênito sobre a coincidência de sua eterna luta em levar seu marido à igreja e o assunto explanado pelo padre durante o sermão.
E lá foi ela com um tom de voz sarcástico e vitorioso, enquanto olhava pro meu amigo que a tudo ouvia pelo viva voz:
- Hoje levei seu pai à missa. Vivo falando prá ele que tem que ir à missa e participar e ele sempre reclama e não vai. Mas hoje foi bom. Adorei.
E encerrou dizendo:
- A missa foi feita prá ele!
Ao que o filho perguntou:
- Porque? Estavam distribuindo cerveja lá?
Meu amigo levantou e correu tomar banho. Segundo ele, está até agora treinando para olhar prá cara da esposa e não rir.
Lembranças... (4)
Talvez essas duas historas que aconteceram comigo expliquem o porquê de eu não me dar bem com cavalos (animais equinos - sem trema) e, também, de não gostar de rodeios e festas de peão. Vamos à elas.
Minha primeira aventura com esse animal deu-se durante as férias escolares, há muito tempo, na vizinha cidade de Itararé. Por termos parentes em comum naquele local, eu e meus primos (entre 6 e 7 no total), viajavamos Para a casa de nossa avó.
Cidade pequena, vazia, pouca coisa a se fazer e nós, com idade entre 9 e 12 anos e disposição a mil, sempre procurávamos algo a fazer. Nossa diversão se dava, diariamente, nos fundos de uma serraria, onde havia montanhas de "sepilho" (restos de madeira, quase em pó), onde faziamos cavernas, cabaninhas ou desciamos rolando lá do alto.
Essa última modalidade sempre nos causava vários arranhões, que devido à ausência de nossos pais, que ficavam em nossas cidades de origem, não trazia problemas nem proibições para, no dia seguinte, voltarmos ao nosso "parque de diversões".
Num certo dia, ouvimos uma de nossas tias comentar que um tio distante ia vender uma chácara que possuia nos arredores da cidade. Meu primo mais velho se interessou e, como quem não quer nada, questionou onde ficava e como chegaria lá. Pronto! Estava lançado o desafio: procurar a chácara do Tio Ídio (nosso tio-avô, que veio junto com seu irmão, nosso avô Armódio Abdallah, do Líbano).
No dia seguinte saímos a procura da chácara. Até que não foi dificil encontrá-la, após horas de caminhada sob um sol escaldante. No local, nada mais que uma casinha velha e só. Decepção total. Horas de caminhada prá... nada?
Um dos meus primos avistou, ao longe e dentro da propriedade, um cavalo. Na realidade, um verdadeiro pangaré. Caído o coitado. Velhinho. Expressão (?) de cansado. Acho que estava usufruindo da chácara mais como asilo do que como propriedade.
Lá foi meu primo, um destemido caubói da cidade, se aventurar em montar o pangaré. Colocou (não sei como) uma corda na boca do animal, trouxe-o prá perto de um barranco, subiu em seu dorso e saiu gritando "aiooowww silver" (expressão muito utilizada por Zorro, nos desenhos animados da época).
Os demais primos (inclusive eu... pobrezinho), nos enfileiramos próximo ao barranco prá esperar nossa vez. Ele trouxe o animal, desceu e o próximo subiu. Detalhe: o cavalo estava sem sela ou sei lá como se chama aquele "troninho" que colocam em cima dele prá gente sentar. Um a um foi dando uma volta e gritando, rindo, divertindo. Até que chegou minha vez.
Importante me apresentar: aos 9 anos de idade eu era baixinho, gordinho (na verdade, bem gordinho), com roupinhas que combinavam ( especialmente compradas pela mãe-coruja que se orgulhava de apresentar o filho fofinho sempre arrumadinho), meias brancas até próximo do joelho e sapatinho (acreditem, minha mãe me fazia usar sapatinhos de amarrar, quando não era bota ortopédica, com aqueles conjuntinhos mirins).
Subi no barranco e puxaram o cavalo prá perto do mesmo. Segurei em sua crina e tentei esticar lateralmente a perna esquerda para alcançar seu lombo. O problema de gordinho mirim é sua mobilidade e alongamento. No meu caso, a falta dela. Cada esticada de perna era um chute lateral na barriga do cavalo, que se afastava do barranco. Puxado prá próximo pelos primos, lá ia eu tentar novamente e chutar o cavalo.
Até que, após várias tentativas, consegui! Meu pé (e somente ele) estava nas costas do cavalo. Gritaria geral. Vitória. Havia conseguido. Ou não...
Os gritos de meus primos, ao que parece, assustaram o desconfiado animal que estava há vários minutos sendo chutado e começou a deslocar-se lateralmente para longe do barranco. E eu com um pé no barranco e o outro em suas costas, sendo testado em meu alongamento de pernas. Descobri que fazer "spacatto" é doloroso.
Começou o questionamento dos primos. Uns gritavam prá eu "pular" com a outra perna prá cima do cavalo. Outros, prá eu puxar a perna de cima dele. Não sei se pela idade ou pela inusitada situação, acabei por não fazer nem um e nem outro. Até que escutei os fundos de meu shorts verde (que combinava com minha camiseta verde) abrir-se de ponta a ponta, num barulho de rasgar que assustou de vez o cavalo, fazendo-o andar num misto de lado e prá frente, fazendo eu ver o mundo de ponta cabeça numa queda que demorou horas até atingir o chão.
Meus primos até que seguraram a risada e vieram me acudir, todo estirado no chão e iniciando uma cara de choro. Não lembro se doeu costas, pernas ou braços. Mas lembro que andar pelas ruas da cidade, durante o trajeto de volta, com um shorts dividido ao meio, que deixava a mostra uma cuequinha com personagens de Walt Disney, me matou de vergonha.
Minha primeira aventura com esse animal deu-se durante as férias escolares, há muito tempo, na vizinha cidade de Itararé. Por termos parentes em comum naquele local, eu e meus primos (entre 6 e 7 no total), viajavamos Para a casa de nossa avó.
Cidade pequena, vazia, pouca coisa a se fazer e nós, com idade entre 9 e 12 anos e disposição a mil, sempre procurávamos algo a fazer. Nossa diversão se dava, diariamente, nos fundos de uma serraria, onde havia montanhas de "sepilho" (restos de madeira, quase em pó), onde faziamos cavernas, cabaninhas ou desciamos rolando lá do alto.
Essa última modalidade sempre nos causava vários arranhões, que devido à ausência de nossos pais, que ficavam em nossas cidades de origem, não trazia problemas nem proibições para, no dia seguinte, voltarmos ao nosso "parque de diversões".
Num certo dia, ouvimos uma de nossas tias comentar que um tio distante ia vender uma chácara que possuia nos arredores da cidade. Meu primo mais velho se interessou e, como quem não quer nada, questionou onde ficava e como chegaria lá. Pronto! Estava lançado o desafio: procurar a chácara do Tio Ídio (nosso tio-avô, que veio junto com seu irmão, nosso avô Armódio Abdallah, do Líbano).
No dia seguinte saímos a procura da chácara. Até que não foi dificil encontrá-la, após horas de caminhada sob um sol escaldante. No local, nada mais que uma casinha velha e só. Decepção total. Horas de caminhada prá... nada?
Um dos meus primos avistou, ao longe e dentro da propriedade, um cavalo. Na realidade, um verdadeiro pangaré. Caído o coitado. Velhinho. Expressão (?) de cansado. Acho que estava usufruindo da chácara mais como asilo do que como propriedade.
Lá foi meu primo, um destemido caubói da cidade, se aventurar em montar o pangaré. Colocou (não sei como) uma corda na boca do animal, trouxe-o prá perto de um barranco, subiu em seu dorso e saiu gritando "aiooowww silver" (expressão muito utilizada por Zorro, nos desenhos animados da época).
Os demais primos (inclusive eu... pobrezinho), nos enfileiramos próximo ao barranco prá esperar nossa vez. Ele trouxe o animal, desceu e o próximo subiu. Detalhe: o cavalo estava sem sela ou sei lá como se chama aquele "troninho" que colocam em cima dele prá gente sentar. Um a um foi dando uma volta e gritando, rindo, divertindo. Até que chegou minha vez.
Importante me apresentar: aos 9 anos de idade eu era baixinho, gordinho (na verdade, bem gordinho), com roupinhas que combinavam ( especialmente compradas pela mãe-coruja que se orgulhava de apresentar o filho fofinho sempre arrumadinho), meias brancas até próximo do joelho e sapatinho (acreditem, minha mãe me fazia usar sapatinhos de amarrar, quando não era bota ortopédica, com aqueles conjuntinhos mirins).
Subi no barranco e puxaram o cavalo prá perto do mesmo. Segurei em sua crina e tentei esticar lateralmente a perna esquerda para alcançar seu lombo. O problema de gordinho mirim é sua mobilidade e alongamento. No meu caso, a falta dela. Cada esticada de perna era um chute lateral na barriga do cavalo, que se afastava do barranco. Puxado prá próximo pelos primos, lá ia eu tentar novamente e chutar o cavalo.
Até que, após várias tentativas, consegui! Meu pé (e somente ele) estava nas costas do cavalo. Gritaria geral. Vitória. Havia conseguido. Ou não...
Os gritos de meus primos, ao que parece, assustaram o desconfiado animal que estava há vários minutos sendo chutado e começou a deslocar-se lateralmente para longe do barranco. E eu com um pé no barranco e o outro em suas costas, sendo testado em meu alongamento de pernas. Descobri que fazer "spacatto" é doloroso.
Começou o questionamento dos primos. Uns gritavam prá eu "pular" com a outra perna prá cima do cavalo. Outros, prá eu puxar a perna de cima dele. Não sei se pela idade ou pela inusitada situação, acabei por não fazer nem um e nem outro. Até que escutei os fundos de meu shorts verde (que combinava com minha camiseta verde) abrir-se de ponta a ponta, num barulho de rasgar que assustou de vez o cavalo, fazendo-o andar num misto de lado e prá frente, fazendo eu ver o mundo de ponta cabeça numa queda que demorou horas até atingir o chão.
Meus primos até que seguraram a risada e vieram me acudir, todo estirado no chão e iniciando uma cara de choro. Não lembro se doeu costas, pernas ou braços. Mas lembro que andar pelas ruas da cidade, durante o trajeto de volta, com um shorts dividido ao meio, que deixava a mostra uma cuequinha com personagens de Walt Disney, me matou de vergonha.
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