quarta-feira, 10 de junho de 2009

Lembranças... (14)

Na época que eu fazia Faculdade de Direito em Itapetininga, sexta-feira era sagrado viajar de moto (uma de minhas paixões ). Itapetininga dista 120 quilômetros de Itapeva. Logo eu que sou apaixonado por viagens de moto, aproveitava a oportunidade sempre!

Meu companheiro de estrada era o Marcão Quati, que morava em Itararé. Por volta das 5 horas da tarde, ele passava em Itapeva com sua moto e lá íamos nós pra Itapetininga.

Sempre chegávamos direto pra aula. Depois, íamos atrás de algum hotel. Nesse dia, especialmente, encontramos um hotel do outro lado da cidade. Apartamento duplo, com duas camas de solteiro. Bonzinho o lugar.

Após colocar as mochilas no quarto, convidei o Marcão pra ir prá alguma balada na cidade. Ele recusou, pois tinha namorada e não queria cair em tentação. Fui sozinho de moto. Notei que o atendente do hotel não estava na portaria. Devia estar dormindo.

Acabei parando numa balada de universitários. Várias pessoas conhecidas. Até que encontrei uma “affair” que eu tinha na facul. Papo vai, papo vem, resolvemos sair de lá e irmos pra um lugar mais tranqüilo.

Pensei em ir pro hotel, mas o Marcão não ia me liberar o quarto. Decidimos ir ao motel que tinha ao lado da balada (super bem localizado, né?).

Nem vou entrar em detalhes. Saímos de lá por volta das 6 da manhã, afinal a aula começava as 8h00. Deixei-a na casa dela e fui pro hotel. Na portaria, ninguém de novo. Entrei no quarto e acordei o Marcão, que foi tomar banho, enquanto eu contava minha longa noite e assistia TV (afinal eu já tinha tomado banho no motel, né?).

O Marcão se trocou, pegamos nossas coisas e fomos pra recepção. Ninguém. Após batermos no balcão, apareceu um rapaz sonolento que nos atendeu. Pagamos a conta, ele agradeceu e saímos.

No caminho até a porta, comentei com o Marcão que o “atendente” tinha dormido a noite inteira, pois não me viu sair e muito menos entrar. E completei: “Imagina se entra um ladrão aki?”. Subitamente o Marcão parou, olhou pra mim e voltou.

Sem entender nada, acompanhei-o. Achei que iria dar bronca no rapaz. Ele pediu a chave do quarto. Deveria estar com dor de barriga e queria usar o banheiro, pensei.

Ele entrou no quarto, foi até a cama que seria minha (e que eu não usei) e a desarrumou: amassou travesseiro, desajeitou lençol, puxou sobrelençol, esticou cobertor. E eu lá, olhando e achando que meu amigo tinha surtado.

Pegamos nossas motos e fomos pra faculdade. Eu intrigado, olhava toda hora pro Marcão, com um ar de interrogação estampado. Passei a aula mudo, sem falar com ele.

Até que ele se encheu e perguntou, do nada, meio bravo: “O que tá havendo, cara?”. Tremi. Meio gaguejando disse que nada, que estava tudo em ordem. E, ele percebendo, perguntou: “É por causa da cama, né? Por eu ter desarrumado ela?”.

Respondi timidamente que sim. Ao que ele disse:

- Neto, pense comigo. Entramos juntos no hotel. Você saiu, voltou e o atendente não viu. Depois ele entra no quarto e vê apenas uma cama desarrumada? Justo num quarto em que dormiram dois caras?

É.... Esse era o Marcão. E lá fui eu, com minha ingenuidade, prestar atenção no resto da aula.